Opinião

A crise na Igreja Universal e os pactos de silêncio nas outras confissões religiosas

Sebastião Vinte e Cinco

O Cristianismo assumiu-se, desde os seus primórdios, como uma verdadeira ferramenta de moralização e de celebração do amor ao próximo e ao dever de servir com desinteresse pessoal tendo em conta o modus vivendi terreno do seu modelo, Jesus Cristo.


O carácter misericordioso da doutrina divulgada por Cristo na sua curta passagem pela terra, recuperada e continuada pelos seus apóstolos, dos quais desponta Paulo de Tarso, ter-se-á perdido com o tempo à medida que a igreja se foi organizando como uma estrutura política hierarquizada.
Aliás, a igreja enquanto instituição dotada de poder jogou um papel determinante na acusação e condenação à morte de Cristo, posicionando-se do lado do poder temporal.
A desvirtuação da doutrina cristã no seio da Igreja Católica até 1517, única igreja cristã, precipitou o surgimento do movimento protestante liderado por Lutero que nas suas 95 teses revelou a imoralidade que caracterizava o poder religioso, muito semelhante ao que se passava com as lideranças judaicas ao tempo de Cristo.
O luteranismo, segunda confissão religiosa cristã, foi a primeira de milhares de cisões dentro do cristianismo, sendo que em grande parte das mesmas as causas de cisão prendem-se com questões patrimoniais, ou seja, da má distribuição da riqueza gerada pelas comunidades unidas pela fé.
A herança de fé de Cristo assenta na libertação de almas contrariamente à primazia da arrecadação de bens materiais como parece ser a regra da esmagadora maioria das confissões religiosas, instrumentalizando-se os fiéis que, mais do que adoradores, são vistos por muitas lideranças como meros contribuintes ao serviço de planos inconfessos em total desrespeito e falta de temor pela doutrina de que se servem para lograrem o enriquecimento imoral, promovendo-se assim o empobrecimento de famílias já fragilizadas pelas condições sócio-económicas em que vivem.
As lideranças religiosas, em todo o mundo, perderam o ascendente moral e a autoridade de reservas morais das sociedades em que actuam por conta da corrupção do poder e das facilidades na vida social que as suas posições na hierarquia das igrejas proporcionam. E Angola não foge à regra, uma vez que durante a grande e prolongada noite de desmoralização e embrutecimento da sociedade, raros foram os sacerdotes que, estando em posições de eminência nas suas organizações, se levantaram contra a corrupção, contra o nepotismo, contra a bajulação e contra toda a sorte de males que fizeram morada no país, pelo contrário, muitos destes juntaram-se ao magno exército de verdugos contra a moral.
A crise instalada na Igreja Universal do Reino de Deus em Angola e que vem merecendo tratamento mediático traz à liça a questão da lealdade à doutrina cristã que terá sido, durante os anos em que os bispos e pastores angolanos se remeteram ao silêncio, negligenciado em nome do dever de obediência de instruções e regras contrárias aos princípios que estiveram na base do nascimento e crescimento desta fé Cristã.
Como se pode entender que durante anos os bispos e pastores angolanos se tenham submetido à regras e instruções que muito dificilmente poderiam ser consideradas como correctas à luz dos 10 mandamentos?
As crises nas organizações humanas não se iniciam e atingem o pico num só dia e por maioria de razão provavelmente os problemas na IURD em Angola não tiveram o seu início há dias, aliás, as denúncias, por provar em sede e foro próprio, de esterilização de sacerdotes e a ocultação de gravidezes sucedidas de partos, não ocorrem em períodos inferiores a 9 meses, ou seja, como se pode hoje acreditar que há um ano os clérigos desta confissão religiosa podiam ser considerados reservas morais da sociedade?
Os pactos de silêncio, muito comuns em comunidades ligadas pela prática de ilegalidades e ilicitudes, no caso concreto ilustra a prisão das almas de pessoas que na liderança de fiéis se terão proposto a intervir junto de Deus para a operação de milagres nos quais os mesmos (bispos e pastores) não acreditavam.
Porém, esta realidade de imoralidade não é exclusivo da IURD mas sim da maioria das confissões religiosas cristãs cujas lideranças privilegiam a acumulação de tesouro na terra apesar de apregoarem aos seus fiéis a necessidade de desprendimento dos bens materiais para a criação de riquezas no Céu (paraíso).
A tendência de agnósticos liderarem organizações religiosas como bispos e pastores é cada vez mais crescente em Angola, sendo que estes demonstram cada vez menos temor ao Deus que pregam, a julgar pelo modo de vida de ostentação e de promiscuidade que, a despeito de em muitos casos fazerem esforços para esconderem, não deixa de ser conhecido das suas comunidades que, ainda assim, se recusam a enxergar.
É por estas e outras que o Estado Angolano, consciente do aproveitamento da profissão de fé para a acumulação de capital por parte de lobos vestidos de cordeiros, deu início, há mais de um ano, de um processo de “ilegalização” de supostas denominações cristãs.
Mais do que esperar por milagres, as comunidades religiosas cristãs devem ser orientadas a interpretarem os mandamentos e a exigirem dos seus líderes comprometimento com a moral pública capaz de transformar as suas denominações em reservas morais da sociedade angolana.

 

 

 

 

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