Opinião

A cultura é um fogareiro

Adriano Mixinge

O Cacimbo está indeciso, parece não querer instalar-se ainda nesta terra, nestes dias: mas, a cultura cá sempre esteve e continuamos a absorver outras.

Enquanto escrevo esta crónica recebo, no meu whatsapp, um vídeo de Billy de Jesus Eduardo dos Pintos, aluno da professora do Complexo das Escolas de Artes (CEARTE), Maria José Ramos, - Zemy para os mais chegados-, que toca “Bagatelle Op.119, nº2 in C” de Beethoven, no contexto de um projecto com ex-colegas seus, dos anos em que estudou em Cuba: ouvir Dos Pintos a tocar faz-nos recordar que a celebração do Dia de África, em Angola há muito passou a ser, também, um culto ao universalismo.
Para quem no fim de semana passou pela Ilha de Luanda ou esteve à beira mar terá notado o tom cinzento do dia sobre o azul do mar e da linha do horizonte: saberá que a indecisão do Cacimbo tem os dias contados. Há quem viva o Estado de Emergência com mais rigor que outros, mas, terminamos sempre por, pouco antes do final do dia, mais cedo do que fazíamos antes, regressar a casa: já em casa descobrimos que, afinal, estamos sós. Somos só nós com os nossos corpos, com as nossas famílias, com os objectos que estão em casa, com os alimentos que comemos.
Seríamos mais insignificantes do que somos se não fosse porque das poucas escapatórias que temos, a única realmente interessante é a da arte e da cultura: se não for um livro é um filme, se não for um vídeo-jogo jogamos às cartas, damas ou xadrez, se não optamos por ouvir música ou ouvir rádio são os lives solidários via televisão ou através das redes sociais, se não é a internet é a boa conversa o que nos faz empurrar os dias.
Se, então, afinal de contas estamos sós e somos a nossa cultura: por que razão é que não queremos valorizar como lhe é devido as indústrias culturais e criativas e, em rigor, a possibilidade de organizar melhor uma economia da cultura, em Angola? Ninguém quer saber se o pdf com o livro de um autor vivo não deveria circular se não fosse na forma de ebook e que ele recebesse os seus direitos de autor? Ninguém quer saber se os criadores das músicas que ouvimos, em casa ou quando estamos num centro comercial a fazer as compras, podem viver com o fruto do seu próprio trabalho? Ninguém quer saber se quando um canal de televisão passa um documentário, um videoclipe ou um filme de criadores, - que até conhecemos e convivemos com eles-, eles recebem royalties, canon ou bônus por isso?
O panorama geral do perfil, tipo, lugar em que exercem características que as diferenciam, domínios de intervenção, volume de negócios e de empregos que as indústrias culturais e criativas geram, em Angola, é ainda desconhecido ou, se quisermos dizer de outro modo, é conhecido de modo parcial, de modo pouco ou nada sistematizado.
Porém, na semana passada, depois da imprensa ter publicado a nota da reunião de Adjany Costa, ministra da Cultura, Turismo e Ambiente (MCTA) com um grupo de artistas que falava da distribuição de cestas básicas e que, apesar de todos saberem que até são mesmo necessárias, momentaneamente, as pessoas ficaram ainda mais descrentes do que, em geral, já estão, sem entenderem absolutamente nada, eis que começou a circular online um inquérito sobre o impacto da Covid-19, no sector cultural.
Pelo menos nos moldes em que o inquérito está a ser feito, - utilizando o aplicativo Surveymonkey - a iniciativa é inédita, no MCTA, e permitirá recolher dados de maneira célere: o superministério terá informação bastante fidedigna sobre o empresariado nacional na área das artes e da cultura e, com estes dados, poderá catalisar o desenvolvimento tanto das indústrias culturais e criativas como, em geral, da economia da cultura.
O Cacimbo está indeciso, parece não querer ainda instalar-se na terra, nestes dias. Com os lives de Euclides da Lomba, de Patrícia Faria, dos Lambas ou com a homenagem ao André Mingas, uma coisa é certa: a cultura é o fogareiro que nos acalenta, o refúgio mais seguro, em tempos de pandemia, cultuando tanto o que nos caracteriza como o que nos torna universais.

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