Opinião

A diferença dos zeros honrados e roubados

Luciano Rocha

O zero, à primeira vista, parece não valer nada, mas qualquer dicionário mostra que depende da aplicação que se lhe dá, do lugar em que o colocamos, enquanto algarismo, que tanto o torna atraente, como dispensável.

Naquele último caso, a palavra é utilizada para definir a nulidade de alguém, de alguma coisa, sem préstimo, dispensável, embora, paradoxalmente, com frequência os zeros sirvam às mil maravilhas a gente e situações desnecessárias e escasseiem a pessoas e ocasiões que precisam deles como “de pão para boca”. Que, na circunstância, é mesmo para levar à letra. Ambos os casos são conhecidos da esmagadora maioria dos angolanos, apesar de somente uma minoria saiba avaliar a importância do algarismo quando escrito repetidamente, em “fila indiana”. Assim a modos de uma chusma infindável de clones em passeio pela Marginal. Impossíveis de contar, nem por eles próprios.
Quem se baba por ver zeros escritos assim, mesmo que não consiga contá-los, sequer lê-los, nem se dê ao trabalho de tentar, é a gatunagem de “colarinho branco”. Que faz do erário um cofre particular sem fundo. Se serviu, e serve, dele conscientes que não lhe pertencia. Se o tivesse ganho honestamente, não o desbaratava da forma como fez e faz. Por isso, também, é de uma “generosidade” de pasmar. Nada “egoísta, distribui parte do que pilha por servidores leais, enche de benesses parentes e amigalhaços. O altruísmo não se fica por aqui. Recheia contas bancárias sem os destinatários saberem quem é o benemérito. Deixa-o pensar que talvez seja o Pai Natal que, amiúde, o presenteia pelos serviços prestados à comunidade larápia.
Esta gatunagem de “colarinho branco” é mais indecente do que qualquer outra, porque surripiou desavergonhadamente o dinheiro do povo que renegou, impedindo-o de ter a vida a que todos temos direito. Como melhor habitação, saúde, educação, emprego, pão, factores essenciais para o bem-estar do ser humano de qualquer latitude e angolano não é excepção. Enquanto isso, pavoneou-se - pavoneia-se - pelas principais capitais estrangeiras, a desbaratar o dinheiro que lhe não pertence. Em hotéis, restaurantes, salões de beleza, casas de moda com os quais jamais sonhou. Transporta-se em aviões particulares, automóveis, com motoristas fardados e às ordens, passeia-se em iates, comprou vivendas e apartamentos nas zonas mais caras do mundo. Dá-se ares de “gente importante”.
Os larápios e as larápias de “colarinho branco” são assim. Vivem num país que quiseram construir apenas para eles, integrantes de castas superiores, impunes a todos os males terrenos. Sustentado pelo nepotismo, nas suas mais diversas formas. Do amiguismo aos laços de sangue, passando por toda uma série de elos que o transformam em alicerces da corrupção.
Os gatunos e as gatunas de “colarinho branco” são assim. Embora já tivessem tido dias mais confortáveis. Sem receios de serem algemados, postos atrás das grades, proibidos de viajar, sequer sair de casa, sentarem-se num banco de réus, serem interrogados quanto a fortunas súbitas, torcerem mãos, chorar em público. Perceberem que a “guilhotina” de penas severas lhes pode cair em cima.
Longe deste país que gatunas e gatunos de “colarinho branco” quiseram edificar apenas para elas e eles, há o outro, no qual habitam os que lutam para sobreviver. Que olham para os zeros das somas do dinheiro pifado ao erário e desistem de o contar. Sabe, contudo, que muitos menos algarismos dos constantes das somas do dinheiro que lhes foi sonegado resolviam muitos dos problemas que têm. Bastavam, por exemplo, quatro para colocar à frente de um cinco e tinham 50 mil kwanzas. Suficientes para reparar a máquina de transformar o milho em fuba, principal alimento da população de Kavissi 2. Que é aldeia da Huíla!

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