Opinião

A escola dos Barracões e o caminho a percorrer

Luciano Rocha

A escola inaugurada, na terça-feira, nos Barracões, Lubango, pode ser um marco, início do tempo que há-de respeitar uma série de direitos consagrados na Constituição, como os da igualdade de oportunidades, a começar no ensino.

A escola nova substituiu um amontoado de chapas, onde um grupo de crianças preparava o futuro que, pelo que lhes oferecia o presente, não lhes mostrava nada de bom, mesmo que os professores, porventura, também eles já sem grandes horizontes, tentassem contrariá-las.
As crianças da escola nova passaram, para já, a ter razões para acreditar, quando ouvirem dizer que se está a construir uma país melhor para os vindouros. Sem distinções de origens de nascimento, zonas de residência, quantidade de dinheiro que entra em casa, quando entra. E hão-de aprender que o ensino é direito e obrigação, não privilégio de minorias.
As crianças da escola nova hão-de perceber que também depende delas o êxito da edificação deste edifício enorme clamado Angola. Da aplicação que tiverem no estudo, interesse de aprender, orgulho de saber. E que qualquer um pode vir a ser quase o que quiser. Desde que possua determinação e talento. Imagino que a maioria delas, na noite de terça-feira, custou a pegar no sono afastado pelos pensamentos galopados ao ritmo das batidas do coração, tal qual ngomas em noite de festa. As recordações da sala sem calor e de todos os outros incómodos do sítio onde tentavam estudar feito de chapas que a chuva podia invadir, os ventos levar.
As crianças da escola nova, no Lubango, estão, desde terça-feira, nas “sete quintas”, não cabem em si de contentes. Agora, quando ouvirem falar da Angola que está a ser edificada para eles já não abrem a boca de sonolência por não saberem o que é. Passaram a ter motivos para rir e acreditar. Mas, as outras, “de Cabinda ao Cunene, do Mar ao Leste”? Principalmente, as do interior real, longe de tudo, até delas? Que tentam aprender a escrever e ler também em casebres de lata, quando não debaixo de árvores? Que nunca viram uma carteira e se sentam em pedras, latas vazias? Que para chegarem às “salas de aula” têm de calcorrear, sozinhas, de barriga cheias de vazios, caminhos longos, sem a certeza do professor aparecer? Que ao chegarem a casa ainda trabalham nas lavras, a lavar roupa, acarretar água? E as que foram obrigadas atirar fora os sonhos de futuro menos duro para acompanharem os pais, pastores, castigados pela seca, à procura de capim para os animais, seu único sustento, pois até a pequena lavra sucumbiu à ausência da chuva madrasta?
Esta Angola que “temos em mãos” está muito pior do que alguns possam imaginar e outros querem que se imagine. E não nos venham com a crise económica. Afectou-nos, é verdade, mas também não é mentira que nos despertou para o tempo perdido. Com dinheiros públicos desbaratados em benefícios de minorias. Que enganaram muitos de nós com obras de fachada que lhes encheram os bolsos e prejudicaram a maioria. Principalmente, como sempre, os mais pobres. De que são exemplos vias que tiveram, têm, de ser reparadas, quando não refeitas, habitações por estrear com fendas de alto a baixo, a revelar má construção, campos de aviação jamais utilizados, localidades sem água corrente, nem luz eléctrica, zonas verdes destruídas, apoios aos camponeses que os favoreceram alguém que não foi quem tratou a terra e a semeou.
A juntar a tudo isto - e mais tanta coisa - as pechas mais lamentáveis dizem respeito à Educação e Saúde, pilares de qualquer sociedade, juntamente com a habitação. A nível de instalações e equipamentos, mas também, de pessoal comprovadamente qualificado.
A escola dos Barracões serviu para proporcionar às crianças instalações dignas de estudo. Pelo menos isso. Mas falta-nos ainda fazer tanto.

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