Opinião

A extrema-direita parte à conquista da Europa

Victor Carvalho

Decorre actualmente em toda a Europa a campanha para aquelas que são anunciadas como as mais importantes eleições da história conjunta do “Velho Continente”, depois que 28 dos seus Estados estão agrupados em redor da União Europeia.

Tendo como horizonte o dia 26 deste mês, altura em que os europeus serão chamados a votar para escolher os seus representantes na sede do Parlamento europeu, em Estrasburgo, assiste-se por todo o continente a um desfilar de críticas e acusações, mais ou menos veementes, às respectivas governações internas num ambiente que é próprio de uma campanha eleitoral e que deixa perceber as fragilidades de cada uma delas.
Mas, o que poucos discutem é que, independentemente dos problemas individuais de cada um dos países membros, a União Europeia debate-se com um problema cuja dimensão parece ainda não ter entrado completamente nas diferentes agendas políticas internas.
Trata-se, objectivamente, dos avanços que a extrema-direita tem vindo a registar em cada um dos 28 Estados membros e que ameaça pôr à prova os mecanismos de solidariedade social e económica de que a União Europeia tanto se gaba quando pretende mostrar a sua superioridade em relação a outros continentes, sobretudo o africano.
Neste momento, dos 28 países que dão corpo à União Europeia, apenas Portugal, Luxemburgo, Malta, Irlanda, Reino Unido e Roménia não têm partidos da extrema-direita nos seus respectivos parlamentos.
Em nove dos outros países membros, Polónia, Hungria, República Checa, Itália, Áustria, Finlândia, Letónia. Eslováquia e Bulgária, têm a extrema-direita representada nos seus governos, seja de modo directo ou em coligações.
Pior do que este cenário, é o facto de todas as sondagens indicarem que este avanço da extrema-direita se vai consolidar depois do dia 26 de Maio, uma vez que se assiste um pouco por toda a Europa ao aparecimento de partidos ou coligações de partidos conotados com o radicalismo absoluto.
Steve Bannon, um dos principais ideólogos de Donald Trump, a quem este muito deve por estar actualmente na Casa Branca, está a ser referido por diversos serviços de inteligência europeus de ter criado na Europa uma base para liderar a montagem de um esquema que visa incentivar a criação de alianças entre os vários partidos de extrema-direita continentais, de modo a que estes, nas eleições do dia 26, obtenham pelo menos 30 por cento dos lugares que estarão em disputa.
A concretizar-se este objectivo, a Europa passaria a estar cada vez mais refém de ultra-nacionalistas, que com a sua agenda segregacionista representariam um perigo acrescido para as minorias étnicas e religiosas.
Este cenário, está a colocar em sobressalto as autoridades de Bruxelas que encomendaram recentemente uma sondagem que apenas serviu para confirmar os piores dos cenários, dando como certo que a partir das eleições do dia 26 a extrema-direita passará a ser a terceira força política em Estrasburgo, logo a seguir aos socialistas e aos sociais-democratas.
Deste modo, é absolutamente garantido que está para breve uma alteração substancial das alianças políticas e dos acordos económicos que aquela organização tem estabelecido com parceiros de outros continentes, sobretudo com os africanos.
A questão da migração, tema bastante caro ao continente africano, deverá ser das que mais sofrerá com essas alterações, bastando para tal ver os exemplos que actualmente já nos chegam de Itália e da Hungria e que certamente serão seguidos por outros governos liderados, como o desses, pela extrema-direita.
Também as comunidades minoritárias existentes nesses países, entre elas a africana, terão que se preparar para enfrentar os dias que se avizinham tendo para isso que contar com o apoio político dos seus respectivos países de origem de modo a que não se tornem presas demasiado fáceis de um radicalismo que quase todos condenam e criticam, mas que na realidade se mostra cada vez mais presente.
Como no meio das desgraças há sempre algo de positivo que se pode retirar, resta-nos a esperança de que os países europeus que souberem resistir aos avanços dessa extrema-direita, invariavelmente caceteira, sejam capazes de honrar os seus actuais compromissos políticos e económicos em relação aos seus parceiros africanos e que não se deixem cair na simples tentação de se vergarem aos mecanismos de solidariedade continental, invariavelmente usados para tentar tranquilizar os mais inquietos.

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