Opinião

A falta de educação

Apusindo Nhari |*

A qualidade da educação e do ensino é provavelmente o elemento mais importante por detrás do desenvolvimento e da qualidade de vida dos países. Comete-se frequentemente o erro de reduzir o desenvolvimento aos aspectos materiais e económicos, ou à capacidade tecnológica.

 Porque a educação que falta não é apenas a utilitária, mas sim a que reforça em cada um, e no colectivo, a capacidade de escolher, de criar e de inovar. A que ajuda a formar indivíduos completos. Na nossa perspectiva, a educação, tanto em casa, como na escola, é de qualidade, na medida em que ajude a capacitar o indivíduo a fazer escolhas conscientes, informadas e esclarecidas. A dimensão da liberdade, da auto-realização e criatividade que ela permite, são indissociáveis de uma boa qualidade de vida.
Em Angola constatamos, dolorosamente, que as deficiências na educação dos cidadãos se reflectem de forma persistente na sua incapacidade de encontrarem soluções inovadoras para os problemas - os provocados pela actual crise sanitária e os já anteriormente existentes - mas também na deficiente capacidade colectiva de agir de forma cooperativa e coerente para vencer os desafios que ninguém, individualmente, consegue ultrapassar. Deficiências que acabam por se reflectir nas relações humanas, tanto na esfera pública, como na privada, na maneira de estar na vida, desde os simples mas essenciais hábitos de higiene, até ao exercício da cidadania, e à atitude responsável e de respeito pela natureza. Constatamos também que é possível sair-se diplomado de escolas caras e reconhecidas internacionalmente, e depois viver como corrupto sofisticado, culturalmente desenraizado, e perfeitamente formatado para transformar o seu país num mosaico de condomínios e centros comerciais, justapostos a enormes bairros de excluídos, com o único propósito de acumular riqueza pessoal. Imunizados contra qualquer sentimento de dever no combate às desigualdades, às discriminações e à injustiça social.
Daí a importância de investirmos - como indivíduos, a partir das famílias, das escolas e outras componentes da sociedade - numa educação que liberte e ajude os cidadãos a conhecerem a sua História, entenderem o seu mundo, e que lhes forneça as ferramentas para o transformarem, de forma consciente. Uma educação que consiga nutrir-se na cultura - nas várias culturas que convivem em Angola - e, em simultâneo, seja capaz de incutir o respeito pelo próximo, pela justiça e pela natureza. Uma educação que desenvolva o conhecimento científico, em paralelo com uma formação humanista e um sentido de identidade.
É, por isso, muito redutor, limitar a aposta na educação ao investimento público, e ainda mais se este se limitar aos edifícios. O conjunto dos investimentos feitos pela sociedade, através das associações de pais, das associações estudantis, dos sindicatos de professores, mas também por iniciativas individuais de membros da comunidade, são alavancas indispensáveis para mobilizar, canalizar e controlar os recursos públicos. Na ausência daquelas alavancas, no caso da educação e ensino, como noutros, corre-se o risco dos poderes públicos se ficarem pelas declarações e não praticarem o que propalam: que “o mais importante são as pessoas”, que “as crianças devem ter o que merecem” e que “da sua boa formação depende o nosso o futuro”… A demanda e a exigência pública, cidadã, por um ensino de qualidade e por um ambiente de aprendizagem constante, incluindo para profissionais e adultos, será indispensável para a radical mudança que é necessária. É fundamental uma profunda ruptura com a situação actual, no domínio da educação e do ensino, no sentido acima defendido.
Como reacender a chama dos primeiros anos de independência, onde à explosão escolar se associou uma ampla mobilização para alfabetizar? Naqueles primeiros anos parecia claro que, a consolidação da liberdade, e as premissas do desenvolvimento, passavam necessariamente pelo acesso a uma educação de qualidade. Como foi possível que aquele entusiasmo tivesse, progressivamente, dado lugar a uma imensidão de escolas com crianças sub-alimentadas (algo particularmente comum nas zonas rurais), sem instalações sanitárias funcionais, escolas e universidades sem biblioteca, e professores sub-valorizados e sem condições de trabalho? Para já não falar de transporte escolar ou de electricidade. Como foi possível que tivéssemos “progredido” nesta direcção, mesmo em períodos de abundância de recursos públicos?
É de reconhecer que apesar de elefantes brancos, houve também investimentos em infraestrutura escolar, incluindo muitas escolas, institutos médios, alguns campus universitários incompletos, mediatecas, etc.. E haverá certamente os que estarão a cumprir razoavelmente a sua função, justificando os investimentos realizados. Mas atrevemo-nos a questionar se haverá muitos onde se tenha criado a dinâmica humana de criatividade e ligação à comunidade, tão importantes ao papel transformador da educação e do ensino. Sem contar as obras inacabadas ou inaproveitadas, consequência de prioridades muito questionáveis e de uma deficiente planificação.
Há, sem dúvida, experiências e processos promissores, como o projecto “Aprendizagem para Todos”, a luta dos sindicatos dos professores pela dignificação da classe, a “Rede Educação para Todos” (a estimular o debate aberto sobre o sector), as ONGs e igrejas dedicadas à melhoria do acesso ao ensino, e até vários colégios privados que defendem uma visão formadora para além do negócio. Mas tudo isto é escasso face à imensidão da tarefa da recuperação do nosso atraso.
Tal tarefa exige uma verdadeira revolução que, para além das escolas, envolva a media, e use canais que permitam universalizar o acesso ao conhecimento e o estímulo à sua produção. Uma revolução que inclua não apenas a pressão sobre os poderes públicos por umindispensável aumento dos recursos para a educação e ensino, mas também um maior assumir de responsabilidade por parte de todos, no controlo local do funcionamento da rede escolar. Num ambiente de valorização da(s) cultura(s) nacionais, mas aberto à absorção do conhecimento universal para permitir um olhar crítico sobre as tradições e o passado.
Como consegui-lo?

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