Opinião

A FNLA e o espírito do nosso tempo

José Luís Mendonça

Hoje vamos pôr em cima da mesa a crise de testosterona da FNLA e o espírito que preside ao nosso tempo.

A FNLA deixou de captar o interesse que os dois grandes do maquis despertam. A FNLA está num estado de depressão psicológica, desde que o mais velho Holden Roberto se exilou na França, por decorrência do acordo de Agosto de 1978, entre Agostinho Neto e Mobutu Sese Seko. Até à data, a FNLA não tem feito outra coisa, senão guardar a mágoa dos anos da independência e assinalar encontros alargados dos quais resulta o desentendimento permanente sobre qual o rumo a tomar. Isto deve-se ao excesso hormonal de testosterona que a direcção e a oposição interna segregam e que leva a que a FNLA seja um reduto de velhos aversos à mudança e a que as mulheres neste partido continuem a não ter visibilidade.
Salvo mais douta opinião, a FNLA precisa de se adaptar ao espírito do nosso tempo. E qual é o espírito deste tempo que agora vivemos?
É um espírito de paz. A guerra de nós contra nós acabou em 2002, pondo fim ao período mais trágico e sanguinário da história angolana desde 1961.
É um espírito de reconciliação. O próprio Executivo, pela mão do Presidente João Lourenço, fez uma aproximação às vozes altamente dissidentes da oposição livre juvenil (revus) e dos média investigativos, bem como às memórias dissidentes do próprio partido no poder. Este acto que se prevê permanente demarca João Lourenço de todos os ex-Presidentes angolanos.
É um espírito de mudança, de alternância política que terá começado nos Estados Unidos com a eleição, em 2008, do Presidente Barack Obama e se alargou pelo mundo, com a invenção da Primavera Árabe e, agora, com a deposição ou renúncia dos sobas grandes da África subsariana. Sobre a eleição de 2008 nos EUA, tenho dito e repito que Obama não é negro, para efeitos políticos. É um cidadão americano com um certo carisma, que se permitiu completar o ideal democrático de John F. Kennedy e, dada a sua juventude e origem humilde, recebeu o apoio clamoroso da juventude americana. Podia até ser albino. Ou negro retinto. Ou mesmo branco. Por essa razão, discordo de modo absoluto e terminal com as observações racistas do deputado Makuta Nkondo quando disse que Aldaberto Costa Júnior é um luso-tropicalista e que a UNITA pretende branquear o partido.
O espírito do nosso tempo já não se coaduna com as teses do divisionismo da sociedade angolana em estratos epidérmicos ou culturais. Hoje, Angola entrou numa era em que só devem existir angolanos, sejamos nós pretos, brancos, mestiços, albinos ou hindus. Já ninguém se pode mais ater a questões de saber se eu sou híbrido ou se um alto dirigente do país é descendente de catangueses. Se nasceu aqui é angolano! Por outro lado, apelar a Paulo Freire, Salazar e ao luso-tropicalismo para repelir a tese de um angolano luso-descendente é formatar um discurso falacioso e anacrónico, por excessiva falta de argumentos. Esses epítetos falaciosos apenas nos distraem do essencial e só acendem as faíscas da guerra civil, Sr. Makuta. Deixe-se lá dessas coisas, homé! Híbridos somos todos nós, pá! Você mesmo, Makuta, é híbrido porque fala kikongo e português, come kikuanga com fumbua e batata rena com azeite doce português!
Como dizia, salvo mais douta opinião, a FNLA precisa de se adaptar ao espírito do nosso tempo. Precisa de se adaptar ao espírito da mudança, da alternância política. Num lar, os avôs ficam a baloiçar na cadeira e dão lugar ao trabalho dos filhos e netos, no sustento e guarda da casa. Portanto, segundo a lógica natural das coisas, morto o patriarca Holden Roberto, os dois guerreiros restantes, Ngola Kabangu e Lucas Ngonda, devem necessariamente demarcar-se do poder dentro da FNLA.
Um conselho de jornalista, com uma visão menos profana do estado da Nação que a maioria dos políticos, é que os dois se retirem imediatamente da disputa do cadeirão que outrora pertenceu a Holden Roberto. Lucas Ngonda renuncia e Ngola Kabangu admite publicamente que não se candidata ao cargo de presidente da FNLA. Que os militantes chamem o jurista Onofre dos Santos, para assumir um período de transição, em que se organizarão eleições justas e democráticas. Os candidatos inscrevem-se, fazem a ronda eleitoral pelo país, enquanto Ngonda e Kabangu dão um forte kandando à angolana, bebem uma taça de quissângua com gengibre e ficam a ver a coisa andar, a aconselhar, dada a sua larga experiência e maturidade política.
Findo o pleito eleitoral, serão os dois mais velhos eleitos membros de honra, com os direitos que lhes forem inerentes e a FNLA avança, então, como uma força política renovada que o país precisa, dirigida por um jovem com menos de 50 anos, uma força política com tradição e historial na luta de libertação, e não uma força que, de tantas quezílias internas, já perdeu a terceira posição para a CASA-CE. Os tempos que correm já não se coadunam com a perpetuação de um dirigente político no poder. É que o poder corrompe, quer queiramos quer não, meus irmãos!

 

 

 

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