Opinião

A importância do estudo da Geografia (I)

Joaquim Camacho

A Geografia é, como ciência, uma das mais características projecções da necessidade que as pessoas sentem de possuir uma visão do mundo que os rodeia, necessidade que toma o duplo aspecto de procura de um critério de acção e de investigação desinteressada da verdade.

Como tal necessidade existiu desde a alvorada da civilização humana, a geografia é uma das ciências mais antigas, e apresenta-se-nos correlacionada muito estreitamente com as mais diversas formas do saber. Em certo sentido, a maior parte das ciências especializadas podem considerar-se como ramos da Geografia, e há assim um fluxo incessante entre os estudos geográficos e outros, o que torna difícil a delimitação do campo próprio daqueles. Seria tarefa excessivamente longa tentar traçar as modificações que através das idades a concepção do âmbito e método da geografia sofreu, mas não podemos deixar de aludir, embora com brevidade, a algumas das mais recentes transformações na visão que têm as pessoas do mundo que habitam e aos seus efeitos no saber geográfico.
Um mapa-mundi da Idade Média é, neste caso, documento interessantíssimo, não sob o ponto de vista do grau da correcção, necessariamente modesto, mas por virtude de específica qualidade da visão que traduz: a terra aparece concentrada em redor de Jerusalém e está concebida como situada imediatamente abaixo do trono da Divindade. Acompanhava esta visão do mundo, como se compreende, uma geografia de quimera e preconceito. Os mapas e a geografia com tal tendência foram varridos pelas descobertas de Copérnico e pelas viagens do Renascimento. Nasce aí a geografia tão especialmente representada pela Real Sociedade de Geografia de Londres, com o seu encorajamento da exploração das terras distantes e correlativo desenvolvimento de registo cartográfico.
Com o aparecimento da produção industrial e da máquina a vapor e com o desenvolvimento simultâneo da ciência, surgem, naturalmente, duas outras fontes de saber geográfico. As ciências modernas, Física, Química, Geologia e Biologia, levam os homens para amplas visões do papel da causalidade nos fenómenos naturais e para o estudo da superfície da terra, chamado por Huxley fisiografia, e, por outros, geografia física.
A produção e a sua filosofia exposta nas doutrinas da Escola Manchesteriana de Economia Política teve por seu turno expressão em algumas formas antigas da Geografia Económica, nas quais, após a descrição do aspecto físico das várias regiões, se concentrava a atenção nos produtos económicos característicos. É quase inútil acentuar que a primeira destas duas orientações da Geografia a aproxima da Geologia, enquanto a segunda, ao contrário, inspirada na ideia de que o presente é apenas laço breve entre o passado e o futuro, a aproxima mais da História.
O estado actual pode ser resumido dizendo que pelo menos a exploração dos aspectos mais gerais da superfície da terra se encontram hoje muito adiantada e que os métodos de observação e de registo cartográfico foram levados a alto grau de exactidão. Em ambos estes domínios o labor futuro consiste, certamente, em aumentar a exploração do globo nos seus aspectos minuciosos e na aplicação, pormenorizada dos métodos delicados da cartografia a regiões cada vez maiores.
Para que a visão de pormenor se torne gradualmente mais perfeita, importa possuir uma visão do conjunto. Sem isso, escapar-nos-iam coisas essenciais. A despeito disto, a concepção desenvolvida por algumas gerações passadas parece ter contribuído para estabelecer um abismo entre a escola fisiográfica em geografia e a escola histórica, e ainda hoje nos encontramos em risco de cair naquela ilusão contra a qual o General Smuts tão habilmente nos preveniu: a ilusão de supor que, depois de desfazer o todo em partes, nos era possível pegar de novo nessas partes, colá-las umas às outras e refazer assim uma vez mais o todo. Verdade é, porém, que o progresso da ciência em geral e do pensamento económico, em particular, está suscitando, de maneira premente, outra visão. Darwin mostrou aos homens e ao mundo a unidade e a ordem existentes na natureza animada, e esta ideia e os correspondentes métodos foram penetrando gradualmente o estudo dos mais íntimos sonhos do espírito humano, para sua maior ilustração e redenção. Por toda a parte a vida e a natureza física que a rodeia reagem uma sobre a outra, e a história da vida é em boa parte a história de um persistente e, em geral, fecundo esforço para aumentar as suas possibilidades em relação ao meio físico. De maneira paralela, o progresso do pensamento económico deu mais razão a Blake, Dickens e Shaftesbury do que à Escola de Manchester. O indivíduo é encarado como a realidade mais relevante, e surge uma nítida tendência na psicologia industrial e na economia para estudar os homens na sua luta individual com os agentes externos, considerando essa luta mais propriamente como a actividade de uma personalidade una, e menos como a transformação dos homens em servos da máquina.

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