Opinião

A importância do livro no bem-estar de um país

Luciano Rocha

O gosto pela leitura não se cria por decreto, sequer com discursos comemorativos, menos ainda por anúncios de intenções, que delas, lembra o adágio, está o inferno cheio, tal como quase todos nós.

O gosto pela leitura cria-se, torna-se hábito, passa a fazer parte do dia-a-dia, quando há condições para isso. Que é possível criar, com critérios, não fruto do acaso, nem voluntarismos ou pressas. Pelo contrário, de malembe-malembe, com alicerces sólidos. Para não suceder como tantas obras neste país, inauguradas sem estarem prontas ou, pior, mal terminadas.
O hábito de leitura, que, infelizmente, não existe entre nós, define um povo e as perspectivas de desenvolvimento que pode ter em várias áreas. Há um ditado quimbundo que, como todos os adágios, encerra na simplicidade que os caracteriza, verdades e ensinamentos. Este, em tradução livre, significa “viajar é conhecer o mundo”. E isso é realizável, mesmo sem sair do lugar onde vivemos. Mostra-nos outras paragens, algumas distantíssimas. Que a maioria de nós, nem que faça economias durante uma vida, pode lá ir. Também gentes com hábitos e costumes que nos são estranhos. Povos que, como fazemos nós, agora, reconstruíram países em cima de escombros que lhes deixaram guerras. Inventaram praias onde não havia água e onde esta existia construíram estradas, zonas verdes, terras agrícolas.
O livro dá-nos conhecimentos de toda a ordem. E também sonhos, prazer. Torna os povos mais conhecedores, saudáveis, abertos à tolerância, felizes. O hábito de o ter como companhia do quotidiano ganha-se, desde que nos mostrem os caminhos de chegar até ele. Bem mais fáceis de abrir do que alguns querem fazer crer. Às vezes basta querer.
Uma das medidas, pode ser criação de pequenas bibliotecas escolares, de bairro e itinerantes. Não constituídas pelo refugo de instituições que, normalmente, o cedem para se verem livres de “monos”, mas por obras variadas que possam satisfazer várias faixas etárias de potenciais leitores de cada espaço, onde funcionem. Isto, desde que à frente delas estejam pessoas que, no mínimo, gostem de ler e saibam despertar, incentivar ou devolver o gosto pelo livro. Em crianças, jovens e adultos.
O ambiente familiar e a escola são muitas vezes ponto de partida para o início da grande aventura do gosto pela leitura, pelo que os que cresceram numa casa onde os livros eram presença constante são quase sempre bons leitores. Tal como os que tiveram a ventura de terem tido professores que os ajudaram a descobrir o mundo maravilhoso edificado por prosadores e poetas de várias origens.
A verdade é que, nos tempos que correm, um dos entraves ao hábito de leitura são muitas vezes a casa onde se cresce e a escola que se frequenta. Num e noutro caso, as estantes de livros foram substituídas por aparelhos de televisão e computadores. Que alteraram formas de comunicação e temas das conversas. Por isso, entre nós, se escreve e lê cada vez pior. Há até quem diga, eles sabem porquê, mas não revelam, que o livro é espécie em vias de extinção, em desuso!
O apelo à redução dos preços de venda dos livros, como forma de incentivar a leitura, é conversa de circunstância. É quase como dizer que o tráfego rodoviário em Luanda somente melhora quando os condutores forem mais disciplinados, como se fosse possível serem-no sem semáforos a funcionar, com sinais de trânsito caídos por terra e agentes da polícia a virarem a cara às transgressões.
O livro, mesmo com redução substancial do preço de venda ao público, há-de continuar a ser caro, enquanto houver, entre os que o podem comprar, quem o pretira a favor de um par de sapatos, peça de roupa, perfume, jóia, o quer que seja de supérfluo. De preferência com origem estrangeira. Nem que tenha rótulo falso.
O preço do livro, mesmo com redução do preço de venda, até ao preço da chuva, há-de ser sempre caro, enquanto houver professores que não gostem de ler, crianças a estudar ao ar livre, sentados em pedras e latas, meninas e meninos sem sítios onde ficar, quando os pais têm de se ausentar por tempo indefinido à procura de pasto para o gado.
O livro apenas há-de fazer parte do quotidiano do angolano comum, quando um dia integrar a “cesta básica”. Sinal de ter sido considerado, finalmente, “bem de primeira necessidade”.

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