Opinião

A imprensa e a sua credibilidade

Teixeira Cândido

Quando nos propusemos discutir a credibilidade da imprensa ou a sua crise, tal como o debate despoletado pela Rádio MFM, impõe-se que se convoque a história geral do país, em particular da imprensa, e a Sociologia, em concreto de Consumo. A crise da credibilidade que a imprensa enfrenta nos dias que correm é resultado de um concurso de factores.

De 1975 a 1991, o país conheceu um jornalismo militante, filho do sistema político então adoptado pelo partido-Estado. Os jornalistas assumiam-se militantes, não tendo qualquer receio de utilizar o pronome “nosso” em matérias noticiosas. Era um jornalismo mais próximo da propaganda do que do jornalismo como tal. A excepção encontrava-se nas secções do Desporto e da Cultura.
Nesse período, o cidadão nacional residente nas zonas controlados pelo Governo estava confinado a quatro órgãos de comunicação social (TPA, RNA, Jornal de Angola e ANGOP), todos controlados pelo Departamento de Informação e Propaganda do MPLA, o mítico DIP. Essa geração de jornalistas que assegurava os órgãos de comunicação social era, no mínimo instruída, sabia tratar o Português e apresentava uma cultura geral acentuada.
Em 1991, caiu o monopartidarismo e abriu-se o caminho para o Estado de Direito e a democracia pluripartidária. Consagrou-se, pela primeira vez, a Liberdade de Imprensa (artigo 35º, nºs 1 e 2, da Lei Constitucional de 1991 da República de Angola). O Estado, na sua acepção de poder político, viu escapar o monopólio da verdade, que tão renhidamente controlava.
Consciente do papel da imprensa para a sua sobrevivência, o MPLA lançou mãos a iniciativas que lhe permitiam ter órgãos de comunicação social formalmente privados, mas materialmente longamanus dos órgãos públicos. Criou, segundo Sebastião Coelho, em "História e Estória da Informação", 1997, editado pela Executive Center, quatro rádios (LAC, em Luanda; Rádio Comercial, em Cabinda, Rádio Morena, em Benguela, e 2000 na Huíla), assim como o primeiro jornal privado saiu do ventre do Jornal de Angola, de seu nome Correio da Semana. O título partilhou aliás o mesmo telefone, pois não tinha o seu próprio. E o primeiro director, Manuel Dionísio, acumulava esta função com a de jornalista do Jornal de Angola.
Como se de uma mancha de óleo num pano se tratasse, a liberdade de imprensa era difícil de conter e logo nos primeiros cinco anos da década de 90 um número considerável de jornalistas desfaz-se das redacções dos órgãos públicos e abraça projectos editoriais próprios, sendo os mais emblemáticos o Imparcial Fax, Comércio Actualidade, Folha 8, Angolense, Agora, Semanário Angolense e A Capital.
Essa geração de jornalistas, que chega às redacções maioritariamente na década de 80, era menos culta, se comparada à primeira, porém mais ousada e, por isso mesmo, carrega a tocha de pioneiros da Liberdade de Imprensa. Uma curiosidade que não pode ser ignorada é que muitos desses jornalistas tinham passagens pelas secções do Desporto e Cultura, logo, áreas que sempre exercitaram um jornalismo mais aberto.
Se tivéssemos de enquadrar essas duas gerações de jornalistas numa das correntes que animou o Ocidente, entre os séculos XIV a XIX, diríamos que eram Iluministas. Tinham no horizonte o bem-comum. Espiritualmente, eram patriotas.
Incapaz de enfrentar esses jornalistas e os respectivos títulos que iam surgindo, o poder político mergulhou em força neste sector, criando jornais privados dirigidos por jornalistas a si fiéis ou professores de jornalismo, cursados no Leste Europeu e em Cuba. São esses que tinham a missão de lançar confusão na classe, confundir as pessoas, o que resultou num menosprezo dos jornalistas que trabalhavam para órgãos não estatais. O epicentro deste desprezo foi a consagração da bipartição jornalista do privado e do público, suscitando, entre eles, achincalhamentos públicos. O Jornal de Angola testemunhou e foi palco de alguns desses momentos infelizes do jornalismo angolano.
Esses jornalistas, que se dedicavam a fazer “terrorismo de antena”, nunca foram tidos nem achados para coberturas das actividades governamentais, em particular as sessões do Conselho de Ministros, órgão colegial do Governo, à época, ou as actividades presidenciais.
A administração pública, directa e indirecta, estava desse modo tacitamente instruída a criar todas as dificuldades e mais algumas para os jornalistas dos privados. Nessa altura, a Rádio Ecclésia já tinha engrossado a lista. A Lei nº11/02, Lei de Acesso aos Documentos Administrativos, que visava facilitar o acesso à informação, era um “book- in-law”.
Em finais da década de 2000, alguns jornalistas de referência, detentores de títulos, perderam a cabeça, abandonaram o iluminismo e vestiram a pele doutra corrente, o materialismo. Essa corrente traduzia-se em chantagens e alianças com governantes para os proteger ou ajudá-los a afastar possíveis concorrentes. Para uns, era a luta pela sobrevivência; já outros tinham pura e simplesmente mergulhados na luxúria.
No sector público, os jornalistas passaram a disputar os cargos de adidos de imprensa como se de ouro se tratasse. O nome do país pouco importava. Só os que gozavam de enorme influência familiar ou de outra natureza é que escolhiam os países.
Em simultâneo, as redacções dos órgãos públicos iam recebendo uma legião de pessoas, sem quaisquer requisitos para jornalistas, mas que achavam a profissão bonita. Os tios, ministros, directores, assessores presidenciais e outros, enchiam as redacções dessas pessoas menos preparadas, o que facilmente redundaria no actual quadro.
Portanto, a crise de credibilidade que a imprensa enfrenta resulta da interferência política, da ausência dos mecanismos de auto-regulação funcionais (como Comissão e Carteira e Ética), por falta de vontade política, das dificuldades financeiras dos órgãos de comunicação social (por falta da regulamentação da Lei de Imprensa, a primeira, a segunda e a última), de uma política de formação e de quadros e, em última análise, de um mercado sedento de consumir uma informação plural, que raras vezes encontra nos órgãos públicos, por isso disponível para consumir tudo o que seja diferente, ainda que careça de qualidade.

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