Opinião

A independência, as pessoas e as reformas

Arlindo dos Santos

Hoje é dia 11 de Novembro, o dia da Dipanda. Quarenta e quatro anos passaram depois do dia de glória. Vai longo o tempo! Lembro que há uns trinta anos, talvez mais, neste dia, infalivelmente, eu telefonava, pelo menos para três pessoas.

 Para o meu irmão Bito, para um velho amigo em Portugal e para uma amiga que deixei de ver. Sumiu desde que foi chamada a exercer altos cargos. Claro que continuei a festejar por outras vias, com outras pessoas. Fui sentindo as mesmas emoções patrióticas mas, não mais com o rigor e o clima que me envolvia com estas três figuras. Com o Bito, só a morte quebrou o velho hábito, há quatro anos que a maldita proibiu que nos felicitássemos no nosso dia. Longe do refúgio na morte, outras circunstâncias da vida (algumas comparáveis à morte) fizeram modificar o nosso modo de estar e de ser. E aconteceu que o velho amigo deixou de me falar, não celebrou mais comigo o dia da independência. Na última vez que nos vimos lá fora, cumprimentou-me friamente. Frio como a temperatura do ar daquele sítio. Fiquei triste, e continuo magoado. Quanto à amiga, deixou de atender e de comunicar. Habituei-me a falar com ela nesse dia especial, porque era o dia de Angola e porque também era o dia do seu aniversário. Apanhada pelo mal que afecta alguns angolanos, mudou quando virou muhata. É pena, lamento, haja paciência!
Estas situações resultam da vida, sempre fértil nas surpresas. A vida prepara, fomenta e fez-nos conviver com experiências, umas antigas, outras que a independência trouxe. Alguns fenómenos, por várias razões, tornaram-se apenas e agora, mais visíveis. Quarenta e quatro anos, tanto tempo! Dizia o mesmo quando os que lutavam nas matas estavam há treze anos a fazer guerra. Era tanto tempo, naquele tempo era tempo longo! Hoje, deixando o tempo passado e partindo para o lado prático da vida, devo confessar que os maiores martírios por que tenho passado na vida, são deste tempo. Deste período consolidado da nossa independência. Não foi por acaso que me tornei um crítico moderado mas irreversível, de tudo quanto não está bem por aqui, tentando alertar, com o intuito de ajudar a pôr na ordem o que está fora dela. Advirto que, se algum dia se reverter em mim aquilo que melhor tenho de ser humano, se a fera primitiva que cada um de nós mantém enjaulada dentro de si se soltar, ver-me-ão a desabafar e a falar noutro tom. Direi coisas que hoje não digo, nem quero dizer. Falarei, decerto, de pessoas, de um rol de coisas que necessitam de reforma, que me apoquentam e nos prejudicam a todos de um modo muito abrangente.
A independência nacional descobriu coisas belas da vida, a valentia dos homens, mas também a maldade das pessoas. Não será fácil deixar de falar do passado, para que não se perca a memória dos factos que ocorreram e se faça alguma justiça sobre eles. Manterei a postura de sempre, respeitando primeiro a minha pessoa. Aprendi regras de conduta com a experiência que a vida me deu, antes e depois da independência nacional. Não pretendo ser imoral. Sou homem livre e quero fazer valer os direitos conquistados por via da independência. Defendo as boas regras de conduta, e por isso não se admirem se me virem a reclamar com outro ânimo pelas reformas. Pela actualização das miseráveis pensões dos velhotes, pelas casas que correm riscos grandes de ruína. Pelas que se situam, perigosamente, lado a lado com postos de combustível da maior empresa do país; para mostrar as irregularidades, apenas invisíveis para quem representa a poderosa empresa; uma eternidade para constatarem a precária qualidade de vida imposta pelos exploradores desses perigosos postos (provavelmente pessoas importantes, deve ser, tem que ser); cegueira absoluta em relação às consequências que podem advir dos gases prejudiciais à saúde humana que se introduzem nas residências. Já em tempo de independência se reclamou, os advogados consultados preferiam não enfrentar o poder do dinheiro, disseram não vale a pena tentar sequer. Defesa do Consumidor, aonde e quando? Coisas más da independência, é triste dizê-lo! Coisas que precisam de ser reformadas. Confio na independência para repôr a ordem nas coisas que precisam de reforma. Entre o bom que nos trouxe a independência nacional, intromete-se a mancha do mau que nos persegue a toda a hora. E, por isso, não deixo passar em claro os episódios que nos sujeitam ao mal. Denuncio, quer seja eu a vítima, quer sejam outros cidadãos, quando me deparo com cenas que se identificam com as de um mundo próximo do selvagem, um cenário que não estava nos nossos planos de vida. Será que não devo falar dos oportunistas e vigaristas, da água que não corre no prédio onde, fugido dos males do combustível, me acoitei há uns anos? Recordo que no decurso de três campanhas eleitorais, a garantirem-me sempre a solução do problema da água, via-a vergonhosamente desviada para o prédio novo, construído ao lado, propriedade de gente poderosa. Será que não devo neste dia de alegria falar dos setenta e cinco degraus que subo todos os dias, penosamente, e que separam a porta de entrada do apartamento onde vivo (o edifício tem dez andares, eu moro no quarto, e tem gente que, cansada e doente, morando mais acima, nunca mais desceu à rua) do pátio que dá para o largo sujo, miserável, projectado para parque e jardim? Uma área que alberga dois complexos escolares que em tempo de aulas, nesse perímetro ridiculamente considerado como zona nobre, se concentram para além dos candongueiros do ritmo, uma escola do segundo nível, um colégio de referência, lojinhas, lanchonetes, pequenos delinquentes, alcoólicos que urinam e defecam onde lhes dá mais jeito (coitados, estão apertados), e até uma esquadra móvel da Polícia. É uma perfeita babilónia, um pequeno inferno, óptimo para o turista apreciar! Neste dia de suprema alegria, será pecado falar-se disso ou pensar-se numa solução para estes locais emblemáticos, nomeadamente para os prédios altos da cidade, ainda sob tutela estatal e sem elevadores, edifícios onde moram pessoas, onde mora gente esquecida? Por favor, não digam que não há soluções. Há soluções sim senhor, vamos reformar, começando pelas cabeças dirigentes, por falar com as pessoas. Escutem-nas, não as desprezem, aceitem as queixas, recebam conselhos, não excluam quem sofre e não se julguem donos de toda a sabedoria do mundo. Porque não a têm, embora fosse bom que a tivessem. Porque não sonhar com um grande abraço onde caibam em manifestações construtivas, os prédios degradados desta cidade, porque não do país, para celebrarmos melhor a nossa independência e pôr o país à prova das reformas e dos interesses pessoais? Quando quiserem, vai ser possível! Como vai ser possível salvar toda a zona de miséria do imenso subúrbio da capital, quiçá do país, não tenho dúvida!
Agora, enquanto afogo a minha eterna tristeza pela ausência do Bito e pela saudade dos outros que se afastaram, fico preocupado com os políticos que, neste dia de festa, em vez de palavras que incentivem e empolguem, preferiram falar da crise que inibe e assusta. Falta a palavra de esperança real, categórica, que abra o caminho da crença do povo. É necessário aquele pedido claro de desculpa que não vem e ficaria muito bem se viesse. Sim, desculpa e perdão pelo tardar da melhoria de vida, pelos erros cometidos, pelas más escolhas e decisões, algumas delas, perfeitamente compreensíveis. Desculpas que se traduzam em promessas realizáveis, e que não menosprezem a ideia da esperança de que, sobre o caos encontrado e herdado, se trabalha sobre as reformas, com vontade e seriedade.

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