Opinião

A indústria do turismo tem muito que se lhe diga

Luciano Rocha

O torneio de golfe, que se realiza amanhã e no sábado, na Barra do Kwanza, destinado a atrair investimentos para dinamizar o nosso turismo, é iniciativa louvável, como todas as que visam a diversificação da economia nacional.

A própria ministra do sector, a propósito do “Presidential Golf Day Angola” - é assim que se chama a prova - considerou-a “uma porta para o diálogo e, sobretudo”, para que “quem nos visitar conheça a nova Angola promissora, com perspectivas” e “um foco na diversificação e desenvolvimento”.
Meu desejo sincero, e de certeza da esmagadora maioria dos angolanos, é que os desígnios da titular da pasta do sector se concretizem. Por isso poder significar uma Angola melhor para todos. No mínimo, menos má para os mais desvalidos, que ainda são tantos. E hão-de continuar a haver. Quiçá a aumentar, enquanto não forem possíveis apostas maiores em praticamente todos os sectores da vida nacional. Alguns dos quais primordiais, como são os casos da Saúde, Educação, Habitação. E também - importantíssimo, ao contrário do que alguns, por razões inconfessas, querem fazer crer - a diminuição da dependência do petróleo, com todas as inconveniências nefastas que ele nos causa, a vários níveis.
O desenvolvimento da indústria do turismo pode - e de que forma! - contribuir para a diversificação da nossa economia e, por reflexo, na melhoria do bem-estar angolano. Mas... há sempre um “mas”. Receio que se esteja, outra vez, a embandeirar antes do tempo, a querer construir a casa pelo telhado, sem ter em conta a importância da solidez dos alicerces. Como se verificou com estradas, pontes, urbanizações, aeroportos, tudo o que nos foi impingido como modernização e deram no que deram. A pressa é quase sempre má conselheira. Termos fauna, flora e sol, este, o ano inteiro, o que é importante para os forasteiros, mas não lhes chega. Mar, rios e praias, que podiam, e deviam, ser fundamentais na cativação de investidores, não os refiro por decência. Tal o estado em que os puseram descuidos de toda a ordem. Em alguns casos, com culpados conhecidos e bem na vida.
O investidor, principalmente estrangeiro, pode gostar muito de golfe, ficar maravilhado com os terrenos que lhe proporcionarem para o praticar, mas e depois? Quando não tiver cicerones a esconder-lhe caminhos, como fazem quando, por exemplo, o nosso Presidente tem de se deslocar, em plena capital, a um lugar e passam a noite a limpá-los, a remedá-los à pressa? E quando perceber que, por cá, os semáforos não passam de objectos decorativos? E quando se aventurar a dar uma volta à noite e se deparar com uma cidade fantasma mergulhada em escuridão? Mais, e quando quiser comer ou beber um copo e, por azar, entrar num daqueles arremedos de restauração com empregados em conversas telefónicas, com sonoras gargalhadas à mistura, sem o atenderem? E quando tropeçar num dos “alçapões” de que são férteis avenidas, ruas e becos de Luanda? E quando não conseguir levantar dinheiro por os multicaixas lhe indicarem sucessivamente para se dirigir ao próximo? E quando, para trocar divisas, tiver de as comprar na rua? E quando quiser atravessar a passadeira e ela apenas existir até meio da via ou ocupada por viaturas?
E quando cansado, encharcado em suor, resolver ir à praia dar um mergulho para que lhe retempere corpo e alma ou deitar-se a ver o nosso vermelho como outro nunca visto e desistir, porque a água e areia estão inundadas de tudo o que é lixo? Que ao menos, entre dois buracos do campo de golfe, o previnam sobre tudo isso e muito mais. Para ele saber com o que conta.
Esta nova Angola é promissora, tem perspectivas, é verdade, e a maioria dos seus filhos quer recuperar o tempo perdido. Mas, malembe-malembe. A indústria do turismo é complexa.

 

 

 

 

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