Opinião

A máscara

Adriano Mixinge

Em várias épocas e em diversas partes do mundo, ela esteve sempre associada às celebrações, aos rituais e aos cultos; vê-las recriadas como parte da ficção em romances ou no cinema chega a ser trivial; objecto de estudo dos mais recorrentes, na Antropologia e na História da Arte; fartamo-nos delas nas artes visuais e plásticas, no design e no Carnaval, lugares em que se transformaram em clichés: signo da hipocrisia, do oculto e de um ritual determinado, a máscara sempre vale mais por aquilo que representa do que por aquilo que é.

Ela sempre teve múltiplos usos e objectivos: ocultar a identidade de quem a usa independentemente do seu género e ou da sua natureza, proteger um sujeito ou uma entidade, representar um ser ou um ente, entre outras. Antes, o seu uso circunscrevia-se a âmbitos ou a actividades muito específicas: em rituais, na soldadura, no ambiente hospitalar, na esgrima, na apicultura ou na investigação subaquática, por exemplo. Em todos estes casos, o indivíduo ficava mascarado exactamente o tempo em que durasse a actividade que estivesse a realizar para, depois, libertar-se dela. As máscaras dessacralizaram-se nas réplicas do artesanato e recuperaram valor nas grandes marcas de luxo.
Porém, em tempo de coronavírus como o que vivemos em que o uso da máscara passou a ser absolutamente necessário, nem sempre que alguém mascarado passa por mim, cumprimenta-me ou fala comigo sei, ao certo, se é mesmo a pessoa que julgo ser. As pessoas anónimas que eu via desde a minha janela ou que, nas ruas, passassem por mim com as máscaras tornaram-se além de desconhecidas, enigmáticas: se hoje usam uma máscara feita em tecido estampado, susceptível de ser apertada por trás da cabeça e amanhã usarem uma máscara branca ajustada às orelhas, terei dificuldades em distingui-las.
As máscaras que, por causa da pandemia, usamos têm qualquer coisa de vulgar – do tipo que fazem ver-nos um Zorro em cada utilizador - e que, além do mais, nos desmoralizam é evidente: elas mostram que, afinal, somos muito mais fragéis do que julgávamos; que a única vaidade que interessa agora é a de poder estar saudável, protegido, não ser contagiado nem contagiar ninguém; que aparecer sem máscara é certeza de estar e pôr outros em risco.
A boca e o nariz deixaram de ter o protagonismo que antes tinham algo que não parece alegrar muito aos olhos: a tristeza da resignação apoderou-se de olhares que já foram belos. O sorriso deixou de ser percebido pela expressão da boca, começou a ser mais visto ou inferido pelo som de uma gargalhada: as máscaras obstruem alguns dos nossos sentidos, dão a sensação de que reduziram o nosso campo de visão.
Sempre que cruzo ou me reúno com um mascarado, demoro uns segundos para encaixar o mascarado nas minhas recordações e registá-lo, ou, mesmo já sabendo quem é, ao ver a pessoa de um jeito que antes não via, começo por fazer uma espécie de reconhecimento. Preciso certificar-me que é mesmo quem penso ser. O chato é quando estamos em família: a máscara incomoda-nos rapidamente. Ao termos uma falsa sensação de segurança temos tendência a querer retirá-las.
Neste momento, ficamos um pouco confusos ao conhecer pessoas novas pelas medidas de biossegurança, mas, sobretudo, por causa das máscaras que pomos: no outro dia tive que pedir ao meu interlocutor que, momentaneamente, a retirasse para memorizar, então, o seu rosto. O meu medo é que, se em algum momento, depois, as máscaras já não forem necessárias, eu não consiga reconhecer a pessoa que, num momento determinado, conhecera com máscara. Tenho curiosidade em saber como ela será recebida em determinados âmbitos como dentro das creches.
Por causa das máscaras que estamos obrigados a usar, em tempo de coronavírus é, também, em parte, o tempo de um carnaval macabro: por tempo indeterminado assumimos uma identidade que fica encoberta debaixo de uma máscara. Ela serve para proteger-nos da morte: desorienta-nos ainda mais, o facto de que não representamos nada nem ninguém para além de nós mesmos.
A máscara tornou-se omnipresente. Não sabemos ao certo, quando é que nos libertaremos delas, se é que isso acontecerá: utilizá-la pode ajudar-nos a sobreviver, a fazer parte de uma história que se repete em várias épocas e em diversas partes do mundo.

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