Opinião

A memória

Fragata de Morais

A memória é, para os mais velhos, um refúgio que se não abusado poderá servir não só de recolecção de partes importantes da vida, como reflexão sobre o quão mais relaxadamente se pode apreciar o mundo e seu girar quotidiano, mesmo se ás vezes relembrar é sofrer duas ou mais vezes, dependendo do momento nostálgico.

Todavia, a memória também pode representar o esboroar do passado, os momentos vividos e apagados da mente e há quem afirme que se o passado fosse bom ele seria o presente. Não chego a esse ponto, a saudade tem que existir nem que seja a memória desajustada daquilo que uma vez foi realidade ou vivência e que, pela sua intermitência pode permitir o reviver do passado várias vezes, cada uma delas uma nova experiência.
Quando em 2003 tive a felicidade de celebrar com a minha mãe os seus 85 anos, o seu bem-estar mental, a sua saúde de ferro e sobretudo sua teimosia, nos ilumina como um farol para o caminho da longevidade, rezando todos nós, filhos, netos, bisnetos e trinetos para que sejamos da mesma cepa, do Nzeto, já que dos seus irmãos, todos eles vivos à altura, a minha mãe Maria Alice era a caçula.
Porém, como todos os idosos, alguma coisa tem que haver que evidencie a idade e, no caso, era a sua memória, em verdade se diga, muito selectiva. Ela só não se lembrava do que não lhe convinha, mas a esta idade, só é de louvar a Deus que assim fosse.
Há muitos anos, estando eu a almoçar com o meu tio Abílio, o mais velho deles, e a esposa a minha tia Leonor, casados já lá iam mais de sessenta anos, a conversa recaiu sobre a falta de memória que ambos se queixavam e do conselho que o médico lhes houvera dado, o de escreverem tudo.
Acharam eles que essa recomendação era-lhes particularmente insultuosa e portanto não escreviam nada, todavia utilizavam o argumento para se atazanarem a vida mutuamente, como se um desafio se tratasse e tivesse que haver um vencedor e um derrotado, este último, o que se esquecesse daquilo que deveria ter feito.
Depois do almoço, já todos sentados nos cadeirões a ver televisão, o meu tio levanta-se e a minha tia logo lhe pergunta onde é que ele ia.
“À cozinha”, respondeu.
“Olha, Abílio, podes trazer-me um pouco de gelado, se fazes o favor?”, pediu-lhe.
O bom do Abílio parou e ficou a olhar para ela, certamente porque, após mais de sessenta anos de casados esses favores não se fazem tão docilmente, no fundo não são favores mas sim chatices.
“Está bem.”, respondeu num suspiro revelador.
Aí, para o picar, talvez, a minha tia pede-lhe para escrever, se não ainda acabaria por se esquecer, o que o tornou furioso, mas conteve-se.
“Não será necessário, não me vou esquecer”.
“Olha filho, já agora coloca em cima do gelado duas daquelas cerejas que estão no frasco, está? Seria melhor escreveres o que estou a pedir-te, sei que vais esquecer.”
Já perto da porta da cozinha, e com ares de muito poucos amigos, o meu tio Abílio respondeu, a voz tremelicando de ira contida:
“Não me vou esquecer de nada, bolas! Queres uma taça de gelado com duas cerejas em cima, não é?”, e foi-se. Como que para o aguilhoar, a doce Leonor, minha tia reverenciada, ainda lhe atirou:
“E olha, coloca também dois biscoitos...”, e só não lhe pediu para escrever, porque ele já não se encontrava nas redondezas.
Assisti a toda esta conversa, pelo canto do olho, curioso e com vontade de rir. Achei que, ao fim de tantos anos juntos, de facto, as conversas têm que ter sempre o seu quê de agressão, de queixa, de imputação mútua das acções, nada mais resta que não seja conhecido e testado.
Ao fim de cerca de vinte minutos, ele regressa da cozinha, com uma bandeja onde se encontrava um prato com um ovo cozido e duas batatinhas, que entregou à minha tia. Esta olhou para o prato, e depois virou-se para ele, sorridente:“Obrigado, filho, mas esqueceste-te das torradas.”

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