Opinião

A necessidade da arte

Manuel Rui

Eu nunca perguntei quem havia conseguido porque aquilo parecia para nós a maior sorte das sortes. Jorge Amado, sô Jorge, acompanhado de Zélia, sua esposa, estavam dentro da “república dos mil-yonários”, uma casa de estudantes vindos das colónias e nós os do ainda “Solar do Kimbo dos Sobas” também rumámos para os mil.

Nunca me esqueço que Orlando Rodrigues e eu, fizemos um manuscrito à pressa com a resenha biobibliográfica de Luandino Vieira (o Graça) que entregámos a Jorge Amado juntamente com o livrinho “Luuanda” já gasto de tanta leitura ávida. Jorge autografou livros nossos e os da biblioteca da república que ele achou interessante uma casa de estudantes com biblioteca.
O nosso intento era que Jorge levasse pelo mundo a mensagem da necessidade de lutar contra o fascismo salazarista e pela libertação de Angola e as outras colónias que Portugal considerava parte integrante do território português. Jorge Amado já não gostava, pela sua projeção mundial, de ser usado como pombo correio do partido comunista brasileiro, confessou-nos a dificuldade das lutas que grande parte dos europeus não entendiam, criticou o regime soviético que se tornara servo de uma elite, a nomenclatura e admirava os escritores que, através dos seus escritos, revelavam, contida e metaforicamente, os erros do partido a que pertenciam. Jorge Amado era um homem livre consigo próprio, baiano, marxista e do candomblé. Zélia fazia fotografias pois nisso era famosa no Brasil e não só. E falámos nos “subterrâneos da liberdade,” na “Gabriela,” nos “Capitães da Areia,” de maneira que Jorge se emocionou à lágrima.
Luandino estava no campo de concentração de Chão Bom, Tarrafal em Cabo Verde, a cumprir pena de crimes contra a segurança do estado. O livro havia sido premiado pela associação portuguesa de escritores que foi imediatamente encerrada, alguns dirigentes, como Pinheiro Torres, exilaram-se, o salazarismo moveu uma pérfida campanha na televisão, rádio e imprensa contra Luandino “terrorista”, as pessoas pensavam num negro e…Luandino não é, dois angolanos de formação superior, julgo que não vendidos mas com medo, comentaram a obra na televisão, evitando política e refugiando-se num delito contra a língua portuguesa. Em suma, um pequeno livro, um prémio que aquele contexto até poderia passar despercebido, o fascismo português transformou em bandeira para agitar a inocência de uma boa parte dos cidadãos, mobilizando-os para a necessidade da guerra colonial na sequência da célebre frase de Salazar: “para Angola e com força.” Ou outra: “Portugal não é um país europeu e tende cada vez mais a sê-lo cada vez menos.”
Reparem que aquele livro para Salazar e seus seguidores causaram-lhes efeito equivalente a muitas emboscadas dos libertadores contra a tropa colonial. Era a força da arte. Por isso a sua necessidade.
Anos mais tarde, Angola independente. O escritor Pacavira e a Jóia, organizaram uma funjada numa fazenda no Bengo. Nos aperitivos, Jorge e Zélia bebiam uísque sem gelo. Nas comidas com dendém viu a nossa relação histórica, ouviu os instrumentos que foram transformados no Brasil. Falou com muita emoção, recordando aquele encontro em Portugal e agora na Angola independente. Tudo começara com os livros, com a palavra, com a arte.
Um ou dois anos antes de eu chegar a Portugal para frequentar a universidade, o genial Louis Armstrong veio a Portugal fazer um concerto. Um grupo de estudantes angolanos em Lisboa, descobriu o hotel, marcaram emboscada até Armstrong regressar ao hotel. Foi interpelado por um dos estudantes que dominava o inglês, solicitou só um minuto, sentaram-se numa das mesas do salão e, tudo foi resumido, Angola era explorada pelo regime de Salazar, havia, trabalho escravo e uma luta de libertação. Pediu a Armstrong que no fim do concerto dissesse, em português, liberdade para Angola. Escreva e ensine-me a pronúncia. Entregaram-lhe o papelinho retangular escrito “LIBERDADE PARA ANGOLA.”
A malta ficou à espera. E no fim, Armstrong falou em inglês: “agora para terminar…” o locutor traduziu e Louis tirou o papel do bolso e leu: LIBERDADE PARA ANGOLA. Dizem que ninguém vaiou, muitos ficaram calados mas houve quem aplaudisse fervorosamente.
Estes dois episódios, como outros que envolveram a minha geração, faz-nos refletir nos tempos que passam. Nem as guerras mundiais, as invasões, a deslocação de milhões de angolanos para o outro lado do mar, o maior epistimicidio que a humanidade conheceu, nada, nem esta crise do vírus fizeram parar a arte, antes pelo contrário, a cada revés a arte respondeu com música, poesia, ficção, teatro ou dança sempre, uma boa melhor parte se empenhando na defesa dos mais desprotegidos contra os tiranos e as desigualdades.
Enquanto o surto do vírus assusta, eu que não saio do cubico, sou de alto risco, só saí duas vezes num uber mas fiquei dentro do carro enquanto a Alice entrou na farmácia onde o nosso amigo kaluanda já tinha as receitas aviadas, pagou e viemos embora que o Sector de Saúde não tem dinheiro nem para medicamentos nem tão pouco, por afecto, para dar uma telefonadela a saber se ainda não morri.
Felizmente, contínuo a interessar-me pelos outros mesmo por aqueles, incumpridores dos deveres, que não se interessem por mim.

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