Opinião

A nossa grande pobreza

Sousa Jamba

Graças as novas tecnologias, tenho falado muito com o meu filho cassule, de dez anos, nascido nos Estados Unidos, que nunca esteve no continente africano. Recentemente, estivemos a falar sobre a altitude do Planalto Central de Angola.

 A um certo momento, o Tiyuka perguntou se a África era assim tão pobre como se tem visto nos relatos de televisão. A conversa com o meu filho fez-me pensar na pobreza da nossa própria área, aqui no Planalto Central. Sim, há muita pobreza — mas não é por falta de recursos naturais, o que existe é uma cultura que promove uma certa pobreza de imaginação e mentalidade.
No século XIX, o reinado do Bailundo foi um grande centro comercial. Sim, há o lado triste dos raids no interior para a obtenção de escravos; porém, existiu também caravanas que iam até o Zanzibar à procura de produtos. Os Ovimbudus tinham a mesma desenvoltura que os comerciantes da África Ocidental que hoje vão detectando possibilidades em várias partes do mundo. Depois da guerra de 1902-1904, houve um esforço tremendo de enfraquecer as redes comerciais tradicionais ovimbundas. Depois houve, também, uma estratégia de se transformar os Ovimbundus numa mão- de-obra baratíssima a favor do colono. Na minha aldeia ancestral, Manico, havia uma escola chamada Salvaterra, do grande professor Daniel Ekundi. O Professor Ekundi estava sempre em disputa com comerciantes locais que achavam que ele estava a dar aos jovens o tipo de conhecimento que os levaria a recusar a ser parte do sistema de trabalhadores contratados. O comerciante contratava jovens que iriam trabalhar numa fazenda no Norte do país. Este comerciante tirava o seu lucro sem fazer essencialmente nada. Para se sustentar este arranjo, tinha que haver uma cultura que enfatizava a inferioridade do negro. O Professor Ekundi foi eventualmente enviado para o São Nicolau.
Durante a guerra do pós-Independência, as várias entidades políticas precisavam de comunidades com jovens que poderiam prontamente serem incorporados nos exércitos. Em Setembro de 2003, quando vim para o Manico, encontrei muita tensão entre os jovens e os mais velhos; havia, na altura, a noção de que a prosperidade do Manico viria de uma bênção do Governo Central etc. No Manico, havia disputas, às vezes exaltadas, entre membros do MPLA e da UNITA. Uma das grandes questões na altura era sobre o salário do soba, que também era o representante máximo na aldeia do partido no poder, o MPLA. Este era o mesmo caso em várias aldeias que visitei, na altura.
Aqui, no Planalto Central, estou a testemunhar uma verdadeira revolução, em que, muitos, especialmente os jovens, estão a despir-se dos preconceitos que propagavam a pobreza. Estive recentemente na aldeia de Sachipanguele, na comuna do Chiumbo, porque tem esconderijos encantadores. Em Sachipanguele, ia sempre visitar o meu jovem amigo, Domingos, que, como vários outros, ia trabalhar em Luanda e no Norte para fazer algum dinheiro. Até recentemente, havia autocarros que vinham para o Chiumbo levar jovens para irem trabalhar no Norte. Hoje já não é o caso: estou a ver camiões a vir de Luanda e do litoral à procura de comida para levarem para o Norte. Na aldeia de Sachipanguele, os jovens estão a produzir couve, cenoura, pimentão , feijão, etc nas suas lavras. Ontem vi um sistema impressionante de valas de irrigação. Nesta aldeia, vi várias antenas parabólicas e motorizadas; até vi um candongueiro que partiu de manhã para levar os comerciantes para o Huambo. No passado, tinha tirado uma foto de uma criança malnutrida, sem saúde. Ontem vi a mesma criança, cheia de vida a comer abóbora com leite condensado. Na aldeia de Sachipanguele já se construiu uma loja para um comerciante mauritaniano.
O que aconteceu é que Sachipanguele está agora ligado à Estrada Nacional E250 por causa de várias rotas construídas pelo empresário Segunda Amões, usando os seus próprios fundos. Mas também há, naquela aldeia, cada vez mais, um espírito de cooperação que estava ausente. As valas de irrigação, por exemplo, são cavadas por todos. Notei, por exemplo, que se usa muito na aldeia o adubo composto. Os jovens “beberam” dos mais velhos, que aprenderam as técnicas dos missionários protestantes, e assim o solo está a ser explorado de uma forma mais sustentável. Depois há a rotação de colheitas: planta-se feijão desta vez para depois se plantar batatas e isto enriquece o solo. Um jovem, no Sachipanguele, disse-me que havia um velho que trabalhou em várias fazendas por muitos anos e estava a dar conselhos muito úteis aos outros. Numa outra parte de Sachipanguele, um grupo de jovens está a plantar mangueiras e abacateiros porque prevêem um dia plantar café. Soube que no passado a aldeia já produziu café.
A maior pobreza que um povo pode ter é a falta de autoconfiança. Quando as comunidades se emancipam da escravidão mental, o resultado é que as mesmas passam a ter uma verdadeira noção das suas potencialidades. Quem tem dinheiro que lhe permite sonhar ter uma carinha brevemente e poder enviar os filhos para uma boa universidade, não têm tempo para o kaporroto ou promessas de activistas políticos que às vezes andam a pé!

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia