Opinião

A oralidade é um dom

Luciano Rocha

A oralidade é um dom, que pode ser melhorado - há técnicas para isso -, mas apenas por quem nasceu com ele, como, amiúde, comprovam exemplos bons e maus desta verdade.

Do mesmo modo que não é arquitecto, artista plástico, cantor, músico, poeta, médico, professor, sequer político, entre tantos exemplos a citar, quem quer, mesmo que empilhe certificados de licenciaturas, mestrados, doutoramentos, também ninguém, apenas por saber articular palavras, não raro desconexas, tem o dom da oralidade.
O dom da oralidade não se compadece com poses, fatiotas, entoações distorcidas na tentativa de esconder pronúncias - cada um tem a que tem, como sucede em qualquer parte do mundo - que, no fundo, destapam complexos de querer mostrar sabe-se lá o quê, dispensa sorrisos no anúncio de tragédias e rostos sisudos ao falar de boas-novas. Rejeita, igualmente, gritarias em discussões de assuntos sérios, que exigem ponderação, a revelarem falsas indignidades, no fundo, falta de argumentos, do domínio do tema em causa.
O dom da oralidade, desde tempos imemoráveis, serve bons e maus princípios, como comprova a História Universal. Num e noutro caso, frequentemente alteram rumos de povos, continentes, o próprio mundo. Porque quem nasceu com ele consegue cativar e arrastar multidões, mesmo que estas, muitas vezes, não percebam o que ouvem, nem os que falam saibam o que dizem. Limitam-se a usar palavras, até frases, que ouviram ou leram e gostaram, sem lhes conhecerem os significados, tão-pouco as ocasiões em que as devem a empregar. São vocábulos soltos ou interligados à força, “lampejos” de ignorância a galgarem fronteiras de toda a espécie e, como vírus, crescem, contaminam. É o que se pode designar por “pandemia do disparate”, que salta de boca em boca de ouvido em ouvido. Para esta doença, porém, há vacina. Uns, chamam-lhe educação, outros instrução. O nome é o que menos interessa, embora a sua implementação seja dispendiosa. Não é por este motivo, contudo, que países tidos como arautos da modernidade deixam de a secundarizar em benefício de outros interesses. Curiosamente, ou talvez não, alguns deles, cujos líderes, eleitos democraticamente, graças a campanhas demagogas dirigidas a estratos com menos formação escolar, continuam a registar, diariamente, as maiores quantidades de infecções e mortes pela Covid-19.
Na maioria daqueles países mais atingidos pelo coronavírus não é por falta de estabelecimentos de ensino superior que parte substancialmente da população é desinformada, nem de dinheiro para estudar dos que os dirigem, alguns deles mais conhecidos internacionalmente pelos dislates do que pela ponderação no discurso que os cargos que ocupam exige.
Angola, a partir de certo momento, relegou para a ínfima escala o ensino primário, privilegiando o superior, como se fosse possível começar a construir uma casa pelo telhado. Em tempo de bangar aparências, como se de capim se tratasse, que nasce sem rega, desatámos a construir universidades públicas e privadas, sem cuidar do ensino primário, nem da formação efectiva de professores de todos os níveis. O país, como se previa, foi encharcado por catadupas de “doutores” e “engenheiros” quase analfabetos. As excepções apenas confirmam a regra. De tal modo, que o próprio Chefe de Estado teve de vir, recentemente, a público “pôr o dedo na ferida”. Num discurso breve, mas sem rodeios, salientou a urgência de reverter a situação para não continuarmos a ter licenciados que não sabem fazer uma redacção, indicando o caminho para isso, a aposta séria no ensino da língua portuguesa, das mais faladas no mundo. Pode ser também, esperemos, o início do caminho para acanhar vaidades bacocas, impedir tanto despautério público, tantas frases desconexas, esforços incompreensíveis de disfarçar pronúncias que nos distinguem e unem na nossa diversidade como povo soberano.

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