Opinião

A peça que se move é a da mudança geracional

Adriano Botelho de Vasconcelos

O debate que antecedeu o VII Congresso Extraordinário que como ponto nuclear se traduziu, no sábado, no quadro de alteração da composição do Comité Central do MPLA, - prerrogativa que na visão dogmática jurídica só deveria ser configurada e fixada nos congressos ditos ordinários, - não teve os hipotéticos riscos políticos de alterações que ocorrem em paralelo às dinâmicas corporativas e sociais.

Existiu uma forte visibilidade dos processos de revitalização democrática, naturalmente ancorado num ideal e objectivos então alicerçados em fundamentos aceitáveis e que respondem a um grande desiderato, o de dar início, de forma intocável, ao processo de mudança geracional. Quando li, na noite de insónias já adiantada, os dados estatísticos do documento reitor e das respectivas listas nominais, suspirei de orgulho. Os vários gráficos indicam claramente que o cuidado do líder, João Lourenço, no seu impulso para o risco, na verdade esteve centrado na necessidade imperiosa de alterar a matriz actual da composição do Comité Central, que passa a ter uma maior expressão de jovialidade e com uma boa referência tecnocrática para assegurar a qualidade das políticas públicas.
Naturalmente, por essa via de alteração geracional, o ambiente será menos fechado, novas nuances discursivas vão ter um posicionamento de grupo mais contemporâneo, um estilo que resultará do pensar mais aberto. Corsten (cf 2010, p.141)teoriza que nesse tipo de conduta haveria uma espécie de "força social", e por isso se desenvolvem perspectivas similares sobre o mundo que os rodeia e sobre os acontecimentos históricos. Teremos dois pêndulos em jogo: a tendência à mudança como à permanência, sendo claro que a mudança é deveras o grande impulsionador do processo.
As mudanças geracionais são recorrentes na história das organizações (Mannheim 1964) e da sociedade em geral quando olhamos para a demografia. Elas ocorrem por uma conjugação de dois factores: a chegada à idade adulta de uma nova geração, e o facto de ela hoje ser mais bem preparada porque tecnocrática e mais talhada para a vivência globalizada. Esse processo precisa igualmente de um contexto socioeconómico, cultural e político razoavelmente estável. Pude alertar ainda, no citado debate, que essa fase de alteração geracional terá como pontos essenciais uma maior dimensão das correntes que propagarão os gestos e discursos, tendo como ênfase a liberdade crítica e de maior acesso à informação no seu conteúdo muito pluralista, porque constituído de vários “eus”. Um político de Cabo Verde alertou recentemente o risco de África não poder responder ao clamor dos jovens, que se tornarão no maior grupo etário do nosso continente, quiçá do Planeta, alertam as últimas projecções, e o nosso líder tem sabido lidar com essa pressão demográfica que exigirá muito mais dos políticos.
Esses jovens mais liberais procurarão tornar efectivas as suas aspirações em políticas públicas, e, por essa razão, o Partido MPLA deverá criar diversas plataformas de debate e de auscultação, nas quais essa inteligência possa expressar e ver concretizadas as suas visões sobre as diversas matérias governativas. />Quererão sentir-se menos acomodadas diante dos desafios. Acredito que, no domínio singular, mais vozes alterarão uma certa cultura baseada na atitude de indiferença e amorfismo, porque serão confrontados com o estado e qualidade da educação, da saúde e da própria identidade cultural, e, vá-se lá saber, com que postura social democrática se manterão diante dos efeitos sociais da distribuição da riqueza, que tem uma base da pirâmide pouco expressiva, uma pálida realidade comum aos países africanos. Mas ao vivenciarem e viverem essa mudança de paradigmas baseados na boa governação, naturalmente entenderão que uma visão mais altruísta deve moldar todos os que queiram passar pelo exercício da governação, em tudo muito mais dispostos a lavar os pés dos cidadãos fragilizados como seus servidores, longe do egocentrismo que não ouve e nem lê os fenómenos endógenos e avessos ao apego ao material.
Esse grupo geracional, como um todo, deve, desde já, entender que não terá a vida facilitada, porque o debate, com visões opostas e menos partidarizadas, certamente é quem vai determinar a avalanche das escolhas e cada um num cenário de maior abertura democrática. Como actores deverão entrar munidos do verbo para que Angola seja uma nação onde existam alternâncias sem as perturbações das organizações.
Existem elementos de origem de famílias, percursos pessoais, experiências de voluntariado, percursos escolares e tantos factos marcantes, que não os tenho em conta nesse pequeno artigo de opinião, mas que, tenho a certeza, os especialistas sociais não deixarão de enfatizar e cruzar dados até para que consigam diagnosticar como esse novo passo geracional se irá posicionar sobre muitas outras questões da nação e como se vão definir as suas tendências e necessidades de afirmação numa aldeia cada vez mais global.
Hoje junto-me a esse desiderato ciente de que foram prerrogativas que vão assegurar um partido mais forte, porque concretiza uma jogada de alteração geracional. A peça que hoje se move teve como quadrante a meritocracia. É natural que alguns viverão uma certa ingenuidade política até encontrarem o seu próprio caminho de maturação discursiva, mas que sejam desprovidos dos vícios próprios do lado vertiginoso do poder e seus deslumbramentos. Com um certo humor, sem aspas, sugeri que “Nós” (geração silenciosa), os Kotas, andemos de forma desbragada pela política cívica - infelizmente nas hostes partidárias é um terreno pouco trilhado -, para alertar, com as nossas chagas cicatrizadas, os novos líderes que deverão manter a bandeira de uma nação forte e unida, mas sem deixar de incluir na governação as vertentes sociais que impulsionem os maiores saltos colectivos, porque partimos de uma base onde ainda grassam as dificuldades sociais.

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