Opinião

A preparação de condições para a circulação comunitária

Filomeno Manaças

Cresce o número de vozes que defendem que se deve considerar que já há circulação comunitária do vírus da Covid-19 no nosso país, particularmente em Luanda, ao que as autoridades sanitárias se opõem, recorrendo aos critérios estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde para que tal seja feito.

Segundo esses critérios, para que se considere estarmos em presença de circulação comunitária, é preciso que estejamos em presença de 100 ou mais casos de transmissão do vírus entre a população, sendo determinante que um paciente infectado que não esteve nos países com registo da doença transmite a mesma a outra pessoa que também não tenha viajado.
Estando o país a registar um crescimento diário de casos positivos da Covid-19 - o balanço de quarta-feira era de 291 infectados, dos quais 15 óbitos, 97 recuperados e 179 activos, havendo 43 sem vínculo epidemiológico definido - a percepção quase generalizada é a de que está instalada a circulação comunitária da doença. E é com base nessa percepção, assente em fundamentos razoáveis, em juízos de probabilidade devidamente sustentados - a natureza da doença e as determinantes sócio-culturais são o substracto que permite as inferências -, que diferentes instituições, públicas e privadas, estão a orientar as suas acções, tomando medidas restritivas para evitar que os contágios disparem.
As evidências apontam para a necessidade de todos estarmos mobilizados para esta nova fase de prevenção e combate ao novo coronavírus, que chega com relativo atraso, tendo em conta as medidas de contenção ousadas, tomadas pelas autoridades angolanas logo no início da disseminação da pandemia pelo mundo.
Esta nova fase - é bom que se diga - decorre muito do comportamento individual dos casos importados, dos seus contactos e dos contactos dos contactos… Apesar de os números estarem a subir, não se nota - o que é de lamentar - da parte da população engajamento em cumprir, em seguir a rigor as recomendações das autoridades para prevenir que a doença ganhe outras proporções.
Voltando à questão dos critérios para declarar a circulação comunitária, é mister dizer que Angola está vinculada a acordos e protocolos estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde. Esses instrumentos são de cumprimento obrigatório e não me parece correcto que, de forma unilateral, Angola possa desfazer-se deles e partir para uma actuação a seu bel-prazer, o que não significa que não possa preparar todas as condições para a eventualidade mais que provável de o país entrar para a fase de circulação comunitária da Covid-19. E é isso que tem estado a ser feito. Aliás, mais do que isso!
Quero crer que mais importante do que a pressa em declarar que já temos a circulação comunitária do vírus é ter as condições criadas para enfrentar essa situação e continuar a reforçar essas mesmas condições, porque - e é o que nos dizem estudos e outras experiências -, vamos ter de conviver com o vírus ainda por um longo período de tempo. Estima-se em dois a três anos! Então, o nosso foco deve estar virado para a concepção das melhores formas de fazer face à Covid-19. Para além do que já sabemos que devemos fazer - distanciamento físico (social), higienização das mãos, uso do álcool em gel, uso de máscaras, ficar em casa -, que mais pode ser feito? Que outras medidas podem ser tomadas para que possamos inverter o actual quadro e relançar as actividades sociais, económicas e culturais, sem que seja em “modo confinado”? Essa é a grande questão. Esse é o grande desafio que o mundo enfrenta, quando vemos países a saírem do confinamento, a reabrirem a economia e a serem obrigados a regressar ao confinamento e a fechar de novo as actividades.
Trabalhar para, ali onde for possível e em condições impostas pela pandemia, reabrir sectores vitais da economia, além de ser um imperativo, é a direcção que devemos seguir. Se necessário for, observar dois metros de distância para que uma determinada actividade aconteça, um certo serviço/instituição possa ser prestado/funcionar, então que adoptemos esse modelo em vez de paralisar. Que nos disciplinemos nessa perspectiva, porque não temos, por enquanto, alternativa.
A fase de circulação comunitária do vírus é de extrema complexidade e requer que o país se mobilize fortemente, em termos de meios humanos e técnicos, para a recolha de amostras e para multiplicar o número de testes. Não será possível obter uma fotografia da realidade, se não avançarmos para soluções que permitam ter, de uma determinada comunidade, uma amostra do seu quadro epidemiológico face à Covid-19.
Uma política de intervenção nesse sentido ajuda também a despertar as pessoas e respectivas comunidades para a necessidade de prevenirem e combaterem a doença, conhecerem as suas características, o seu elevado grau de letalidade e os prejuízos que pode causar às famílias e, de um modo geral, à economia do país.
Até agora o trabalho feito visou não apenas salvaguardar a vida das pessoas, como também evitar que a economia nacional entrasse em colapso. O que foi conseguido não é pouco.

 

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