Opinião

A “presença”do Mossad na Casa Branca

Faustino Henrique

As histórias de espionagem entre países aliados, por razões aparentemente óbvias, não são muito comuns, mas num mundo em que o elemento mais saliente e permanente nas relações entre os Estado é o interesse, torna aquela primeira asserção é completamente discutível.

 É que países aliados que, em princípio, partilham de tudo um pouco em matéria de valores, ciência, tecnologia, questões de inteligência, defesa e segurança, ameaças reais e imaginárias, geralmente não embarcam em práticas de espionagem mútua, salvo quando a incerteza, a desconfiança e alguma malícia presidirem às relações bilaterais.
As relações bilaterais entre Israel e os Estados Unidos, alegadamente baseadas em valores comuns, conhece altos e baixos, embora os políticos à frente dos dois Estados nem sempre estivessem de acordo e, como publicamente alegam ultimamente, concordam estar em desacordo.
Há mais de 70 anos que é assim, uma relação curiosa no que a dependência, interdependência e subordinação dizem respeito e que, volta e meia, parece pairar a ideia de que se tratam mais de “laços forçados”do que propriamente de ligações baseadas em valores comuns, interesse e vantagens recíprocas.
Há dias, caíram como uma bomba informações avançadas pela revista “Washington Report on Middle East Affairs”, uma publicação que tem como foco, como indica a designação, notícias e análises sobre a política do Médio Oriente e a posição dos Estados Unidos naquela região, segundo as quais a Casa Branca esteve sob espionagem.
Numa peça longa, assinada por Richard H. Curtiss, o articulista escreve que “Israel foi novamente apanhado a espionar Washington, desta vez na Casa Branca e em sistemas telefónicos sensíveis. Os danos podem ser tão grandes quanto aqueles sofridos durante os roubos flagrantes de códigos militares e planos secretos protagonizados na década de 1980 por Jonathan Jay Pollard. Ou provavelmente maior do que o roubo, por parte de Israel, não apenas dos segredos nucleares dos EUA nos anos de 1960, mas também do urânio enriquecido americano por meio de uma empresa contratada e controlada por Israel em Apollo, Pensilvânia”.
Ou seja, a espionagem israelita aos Estados Unidos, independentemente do lado aparentemente descabido das informações que a sugerem ou indicam, é tão antiga, sendo curioso a forma como Israel nega apesar de várias evidências. Curioso, também, está a ser, primeiro, a forma como o FBI está tratar o caso, que aponta para o facto de, alegadamente, Israel estar por detrás da colocação de dispositivos nas proximidades da Casa Branca que podem capturar chamadas de telefone celular e, segundo, como a Casa Branca, pela voz do seu inquilino, reage.
O jornal de “The Jerusalem Post”, citando o Presidente dos Estados Unidos, atribui as palavras seguintes a Donald Trump : “eu não acredito nisso. Não, eu não acredito que os israelitas estejam a espionar-nos. Acho isso difícil de acreditar “.
Mas, segundo as fontes da publicação que fez menção à reportagem, foram contactadas várias fontes, em vários departamento e estruturas do Governo federal sobre essa história de espionagem da Casa Branca, que data desde Maio, quando ela foi tornada público pelos meios de comunicação, seguido de várias retomas.
De acordo a publicação “Político”, funcionários do FBI confirmaram aos jornalistas não apenas a espionagem, mas pormenores sobre a operação e os autores. Eles são um casal israelita casado, pelo menos um deles membro do Mossad, estacionado na Embaixada de Israel em Washington e desfrutando de imunidade diplomática”.
O puzzle da espionagem israelita sobre a Casa Branca parece estar desmontado, fundamentalmente depois de agentes de contra-inteligência do FBI terem conduzido exaustivas análises para descobrirem o ponto de partida e conexões.
A conclusão, nada admirável para muitos, foi que israelitas estão por detrás da instalação de tais dispositivos, descobertos na Casa Branca, que funcionam como torres de telefonia móvel, enganando os telefones emissores quanto a sua localização, colhendo informações de identidade e, até mesmo, o conteúdo de chamadas e o uso de dados.
Maka grande, como sói dizer-se na gíria, mas o surpreendente tem sido a forma como está a ser minimizado o assunto, desde a reacção do Presidente Donald Trump que não acredita na espionagem de Israel que, por sua vez através do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, já rejeitou veementemente tais informações.
Na verdade, ao longo de vários anos foram tantos os casos de espionagem israelitas sobre o seu maior aliado e curiosamente o Estado de Israel sempre negou tal procedimento.
Desde a captura, de 1986, do espião israelita Jonathan Pollard, Israel prometeu não voltar a espionar os Estados Unidos, mas, na verdade, os casos não pararam no tempo e tudo indica que estas revelações que envolvem o símbolo do poder político americano podem levar o Congresso a reacções mais ásperas.
Mas, é muito provável que essas informações, alegadamente relacionadas com a espionagem israelita sobre os Estados Unidos, sejam “geridas”através de canais apropriados e que nas próximas semanas os órgãos de comunicação americanos não dêem o devido “follow-up”, tendo em conta o politicamente correcto.
Provavelmente, nem se espera que o campo democrata leve para o debate essa maka da espionagem junto dos contendores à nomeação por aquele partido do seu candidato às presidenciais de Novembro de 2020.
A serem verdades todas estas revelações, não há dúvidas de que se está perante o potencial de um grande embaraço para o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, cujos níveis de confiança e aproximação com Donald Trump encontram-se no auge.

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