Opinião

À procura do macho...

Tazuary Nkeita

Ao amanhecer, notei que o macho tinha uma enorme bola verde por cima do olho, maior do que a sua pequena cabeça, e nada mais pude fazer do que aplicar um antídoto. Era saudável, não tinha antecedentes clínicos e, deixei-o de quarentena, isolado num hospital ad-hoc, sob rigorosa observação. Minutos depois..., zebra!

A zebra deu zebra! Os seus últimos movimentos, já sem nexo, diziam-me claramente que ia morrer. E morria deixando a fêmea prenha. Morte trágica, morte dramática, morte inesperada.
«Alguma outra doença sistémica?», não sei dizer. Não há evidências de nada. Também descartei a hipótese de ser um caso de Covid-19! Apenas sei que o meu medicamento deu zebra e ao ser zebra... o paciente morreu!
No dia anterior, foi o meu dia de ir às compras. Dinheiro caído na conta, Estado de Calamidade nas ruas, comida e festa em casa!
Chegado ao supermercado, fui andando de corredor em corredor, depois de suportar a fila à entrada e medir a temperatura. Lavei as mãos, enchi o carro e parei na caixa! Aí, encontrei uma senhora, com todo o arsenal imaginário: máscara, viseira, gel, um pano húmido, um frasco de água farmacêutica e muita elegância feminina!
- Posso? -, perguntei com a cabeça ao notar que não havia nenhum cliente para ela atender.
- Pode sim! -, respondeu ela.
- Julguei que a sua caixa estivesse fechada. Não tem ninguém, contrariamente às outras...
- Hoje o senhor é o primeiro macho que eu atendo! - disse ela muito sorridente!
- Macho, isso é sério! Pode ter muitos sentidos...-, exclamei com tempo suficiente para espreitar a aliança no seu dedo!
- Trabalhar com stress e com a cara trancada, não ajuda. - defendeu-se ela, ao notar quanto havia sido indiscreto no olhar! - O mais importante é não ter a mente poluída...
- Tem razão! Tristezas não pagam dívidas e rir só nos faz bem - salvei-me e senti alívio! A senhora foi muito educada e extremamente correcta!
E foi assim que quase estoirei uma boa parte do salário. Conversa muito boa, compras essenciais, uma factura aos olhos da cara e uma despedida a pedir fique mais um bocadinho...
- Aqui tem a conta, macho! – A operação confirmar, introduzir o código e pagar foi o que mais doeu! Desta vez, disfarcei a emoção. Tinha razões para rir calado, sem mostrar os dentes, e não voltar a ser impertinente. Mas ainda assim, perguntei:
- E o macho de casa, porta-se bem...?
No dia seguinte, em casa, a zebra é que não podia dizer o mesmo. Também era linda, mas infelizmente estava só, agora! O seu macho morrera cegueta e certamente que não apreciou a potencialidade de tanta beleza. Precisava de outro... E era urgente!
Liguei para a pessoa certa:
- Alô, Julião! Preciso de um macho. Aquele não resistiu à doença e morreu...
- Oh..., está difícil. Hoje é impossível. Não tenho machos, aqui. Talvez amanhã. Ligo-te amanhã à tarde, por estas horas, a dizer alguma coisa...
Promessas vagas e vazias, próprias de um vendedor de sonhos...
Dormi e passei a noite com o coração nas mãos, apesar de o jantar ter justificado a conta do supermercado. Pobre era a viúva, tão linda, tão nova, sem o macho e com os filhotes ainda por nascer...
E lá adormeci à procura de soluções, em pleno Estado de Calamidade! Que chatice!
No dia seguinte, o telefone tocou. Era o vendedor do ma-cho. Corri...
Felizmente, três candidatos ao troféu estavam à minha espera; prontos e muitos machos!
E lá comprei os três peixinhos de aquário com a missão de acelerar a desova da fêmea prenha... a zebra, linda!
E aí estão eles, vaidosos, picando e fazendo a corte. Um espectáculo digno de plateia e de muitos aplausos. Brevemente é que vão ser elas. Todo o cuidado será pouco. Já mudei a água, lavei o aquário e matei os fungos. Desinfestei tudo!
A qualquer momento, nascerão dezenas de peixinhos, até eu poder dizer: «Temos muito macho! Acabou-se a procura...»

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