Opinião

A questão é muito séria

Carlos Calongo

Entre a prática que durante muito tempo caracterizou a forma de ser e estar de certos dirigentes angolanos, no que tange à gestão da coisa pública, e o anúncio feito pelo Presidente João Lourenço, segundo o qual o combate à corrupção, a todos os níveis, seria uma das marcas da sua governação, figuram algumas dúvidas, se calhar, motivadas pelas razões conhecidas de não ser uma tarefa fácil, pelos muitos contornos que isso envolve.

Acreditamos ter sido deste princípio que nem mesmo as oportunidades oferecidas aos presumíveis arruinantes dos cofres públicos foram, por estes, levadas a sério, mesmo com o pendor coercivo que a Lei aprovada, para o efeito, comporta.
Neste vai e vem, entre vários processos cujos trâmites correm nos órgãos competentes, independentemente das informações que, de forma oficial, são postas ao conhecimento da sociedade, cada um a seu jeito (des) valoriza a questão que é muito séria e, repetimos, é uma das marcas fortes da governação do Executivo de João Lourenço, que foi objecto de referência primária no discurso de tomada de posse.
As coisas caminharam da forma que caminharam até que, nos últimos dias, foi introduzido um dado que, além de novo, se reporta de elevada importância para o sucesso que todos nós esperamos venha a ser o resultado global da operação, que na prática representa a recuperação de elevadas quantidades de dinheiro público à guarda desonrada de alguns poucos cidadãos.
Referimo-nos, portanto, ao anúncio de que os Estados Unidos estão dispostos a colocar o Departamento de Justiça, o FBI e outras instituições a colaborar com o Governo angolano na localização e recuperação do dinheiro e outros activos retirados ilegal e criminosamente do país, garantia dada pelo secretário de Estado adjunto, John Sullivan, que recentemente visitou oficialmente Angola.
Quem acompanha com alguma atenção os desenvolvimentos da política angolana sabe que o supracitado anúncio pode ser interpretado como uma solução para as limitações que a Procuradoria-Geral da República apresenta como “pedras de tropeço” na prossecução, com êxito, desta empreitada de grande monta, conforme disse, certa vez, o procurador-geral da República, Hélder Pitta Groz.
É como quem diz: Se a questão passa pela falta de meios humanos e técnicos, nós, Estados Unidos da América, “temos pessoal treinado, investigadores e promotores que podem ajudar o Governo angolano na recuperação destes activos e devolvê-los aos reais donos, o povo angolano e, mais do que isso, trazer os corruptos à justiça”.
Com os parcos conhecimentos que temos da forma de actuar dos americanos, no que tange à diplomacia externa, classificamos como muito séria a disponibilidade dos Estados Unidos da América na concepção de suporte técnico para que a luta do Presidente João Lourenço contra a corrupção venha a resultar no restabelecimento da confiança dos investidores na economia nacional e na facilitação dos negócios.
Neste quesito, e revisitando a nossa memória colectiva, facilmente se pode concluir que o passo ora anunciado resulta da tentativa de operacionalização de parte do que o Executivo liderado pelo Presidente da República, João Loureço, colecciona como ganho da sua visita de Estado àquele país da América do Norte, cuja robustez económica lhe permite o estatuto de ser a economia número um do Mundo.
Mais do que isso, e pelo potencial de recursos agrários, minerais, petrolíferos, etc, que Angola possui, não restam dúvidas que, nas entrelinhas, estejam salvaguardados interesses de ordem económica que devem beneficiar as partes directamente envolvidas, na intenção única de que isso redunde na melhoria do bem-estar dos cidadãos, que deve ser o objectivo fundamental da agenda de qualquer político que se preze.
Aqui chegados, apenas os que andam distraídos em relação às mudanças de paradigma na política angolana é que se surpreenderam com o anúncio feito por John Sullivan, porquanto, a este nível, nada que se diz tem valor reduzido, pelo contrário, tudo tem um valor adicional, não fosse a corrupção um dos flagelos sociais em permanente abordagem em todas as tribunas políticas mundiais.
Deste princípio, é gratificante a “oferta” norte-americana na luta pela recuperação dos activos desviados ilegalmente de Angola, alguns deles domiciliados nos Esta-dos Unidos, o que por si só nos leva a compreender que os americanos têm em posse algo tangível, que torna a questão muito séria.

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