Opinião

A radicalização nas redes sociais pela ingovernabilidade

Adriano Botelho de Vasconcelos

Estamos sim num momento crítico da nossa vida económica, um momento gerador de tensões sociais, mas o cidadão não deve antever saídas fáceis, milagrosas e imediatas. Existem orientações quadro para uma economia deficitária e com pouco fôlego como a nossa, o que acentua a necessidade de seguirmos as políticas de austeridade, melhorando a qualidade de todas as despesas, uma problemática que exige um pacto de regime.

Quem governa tem traçado metas, não deixando que alguns dos efeitos corretivos pareçam ineficientes e que levem os cidadãos a sentir que existem as mesmas derrapagens que prolongam os períodos de “cintos apertados” por somarem quinquénios de estagnação. Devemos estar cientes de que os ciclos de crise não podem eternizar-se, o que levou o Presidente da República, João Lourenço, numa das suas intervenções, a afirmar que em “dois anos” não é possível fazer o que não se fizera em muitos anos e essa condescendência temporal deve ser compreensível, porque hercúleos são os desafios que enfrenta.
O surgimento de movimentos de contestação fora do quadro partidário, nessas situações cinzentas da economia, geram os riscos de desintegração social. Os líderes desses grupos, não partidários, ao radicalizarem os discursos de forma corrosiva e através de métodos de contestação baseados no confronto e nas ameaças, colocam numa tensão permanente à estabilidade política necessária para a recuperação da nossa economia e felicidade material. Eles têm ciência de que qualquer economia nas nossas condições tem como bem essencial a estabilidade política, sem a qual o caos gerado pela impaciência arrasta as comunidades para uma situação de falência da nossa sociedade. Toda visão mais radical tem como seu ponto fulcral atingir a saturação das linhas de diálogos e da (in)funcionalidade das estruturas de interesse público que fazem parte duma dimensão maior: o país.
Os partidos, se deixarem de existir -, por perda de influência e incapacidade de agregar os grupos sociais de jovens mais contestatários, sempre mais reivindicativos -, naturalmente mais difícil serão os entendimentos entre os cidadãos, porque as agendas políticas deixam de ter um padrão baseado nas responsabilidades partilhadas entre partidos, numa escala de não ruturas para lá da ambição de poder, um objetivo que enriquece os ciclos de alternância. Todas as teorias são peremptórias em considerar que, uma sociedade sem partidos facilmente se desestrutura. Nessas condições, o poder toma formas de “Comités de rua”, em que os grupos dominados pelo lumpenato e extremistas iluminados, acabam por ditar as suas regras de civilização, e, as suas ordens e citações passam a ser leis. Nessa senda, todos os bens e seres, em nome da melhor perfeição, e também em nome da República, são queimados e ou levados para as masmorras.
O jovem tem uma posição dominante nas estatísticas demográficas do nosso continente. A sua visão contratualista com o poder existente torna-os livres à medida que se apropriam do seu próprio verbo, sem deixar de exibir os motes de rutura. Essa liberdade, como algo de posse, permite-lhes serem independentes das vontades alheias e torna-lhes altivos nessas disputas pelo espaço político ou cívico. O autorretrato se baseia na plástica gesticularia do tipo mímico próximo de Samora Machel e Guevara, ao falarem com paixão e filosofia sobre os países. Só que estabelecem uma equidistância, enquanto outsiders, através de seus laivos de escárnio ao poder estandardizado. Desejam estar para lá do limite da normalidade discursiva, por causa das experiências singulares, baseadas num padrão de desmembramento do politicamente correto. Por isso entram em confrontos permanentes com os outros intervenientes do espaço cívico ou político. Acham que a política partidária nos últimos dez anos não tem sido atractiva. Os jovens estão convictos de que os líderes e dirigentes dos partidos deixaram de ser inspirativos porque as tendências e opções de governação se afunilam numa só saída das crises: a austeridade.
O país está diante de um grande desiderato quase que assumido pelo PR João Lourenço, como um contrato messiânico, face aos grandes empecilhos que enfrenta, com destaque para a situação de uma economia com quase uma década de quedas de crescimento, na verdade um anacrónico período de gestão opaca de recursos públicos, uma dívida pública situada próxima dos 80 por cento do PIB, uma situação de todo muito crítica. Não tenhamos dúvidas: os jovens pretendem usar uma estratégia de enfraquecimento da política e dos políticos profissionais. Eles querem que as mudanças ocorram fora do quadro de uma competição entre partidos. Pretendem ainda, de forma ardilosa e mágica, que a assembleia da política deva ser ampla e incontrolável, através de várias plataformas de poder, com activistas venerados nas redes sociais – algo diferente das redes contestatárias de Hong Kong, lá as máscaras desfazem as identidades -, plataformas onde são aplaudidas as soluções fáceis porque são muito mais encantadoras e que nunca o poderiam materializar por causa dos limites financeiros caso o poder lhes caísse de verde ao colo.
Nas redes sociais tentam alargar o voluntarismo político que seja capaz de desestruturar as condições de “governabilidade”, o assédio ao poder é o prémio de oiro enquanto grupo. Esse é o vector, e não se desviam desses objetivos geradores de riscos capazes de destruírem até os ganhos alcançados. Esquecem-se que as massas populares, quando tocadas pela sensação de ausências dos veios de contenção dos instintos primários, quase como imbuídos de uma súbita embriaguês e cegueira, acreditem - em Maio de 1977 vi o holocausto e seu luto profundo -, até os vizinhos são atirados dos terraços dos prédios altos sob a égide do ódio. Ódio para com todos os cidadãos com mais posse material, pois passam a ser a encarnação do mal. Nas redes sociais, não se esforçam em construir uma nova base política e identitária, em que os activistas e seus seguidores possam aceitar confrontar ideais num campo aberto da democraticidade, e em que os líderes eleitos são acusados por lhes parecer serem conservadores nas soluções sociais. Os novos activistas das redes sociais, uns solitários diante do computador distante numa sala de um apartamento numa capital europeia, ou nas redes internas de WhatsApp, Instagram e Facebook, infelizmente não se querem ver envolvidos e activos na quadratura da política. Todos sabem que é nesse diapasão que devem prevalecer os limites ao risco, aceitar a noção da alternativa cientes de que só são concretizáveis e vividos através de escolhas, a menos que queiram ensaiar a velha máxima de elegerem um outro povo que os sirva melhor na obediência e que os leve ao dilúvio, por puro apanágio do extremismo.
A ideia de punição à elite política não deve colocar em perigo um bem maior. É preciso estarmos atentos à severa ampliação de riscos que ponham em causa o conforto das famílias, e, lance o espírito de vingança e de substituição das instituições que concorrem para a preservação dos bens e principalmente da justiça e vida de cada cidadão; e ainda à crítica exacerbada desprovida de polidez quando se argumentam as opções políticas de cada um; além dos rechaços da ordem estabelecida por comités de gestão.Essas são atitudes e estratégias que levariam o país para uma situação de quebra dos indicadores positivos que provam que temos um caminho mais claro de investimentos por uma melhor educação; investimentos para que a “senhora morte” deixe de se alimentar dos utentes e desapareça dos hospitais e clínicas porque teremos mais médicos cuidando das nossas enfermidades, por termos rumo. Nada pode ser feito de obras numa só alvorada, precisamos dessa energia de jovens que têm fluidez discursiva, trazendo-os como parceiros, pois são uma força que só o tempo saberá lapidar como esplêndidos diamantes que os partidos tradicionais não devem desprezar por exclusão. Nesse quesito, muito menos as políticas do Executivo do Presidente JL se pode perder numa unívoca perspectiva interna da sua juventude, porque muito mais amplas são as exigências da sociedade: pedem uma política de habitação, de geração de empregos, do crédito ao estudante do ensino superior, da construção das casas dos estudantes, etc., e este é um desafio que cabe bem nesse poder legítimo do Presidente João Loureço que se concentra em nos apresentar um balanço no fim do seu mandato, porque é igualmente exigente consigo próprio diante das promessas firmadas há dois anos.

* Escrito em conformidade com o Acordo Ortográfico

 

 

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