Opinião

A Recordar ontem para entender hoje

Arlindo dos Santos

É terça-feira/e a feira da ladra/abre hoje às cinco/da madrugada… E quase transborda/de abarrotada”, cantava o português Sérgio Godinho nos idos anos oitenta do século vinte.

 Naquela época cantava-se bastante e muito bem pelo mundo fora, em Portugal havia músicos de excelente qualidade e entre nós brilhavam estrelas. Ruy e André Mingas, Carlos Lamartine, Lourdes Vandúnem, Teta Lando, o Rei Elias, Dionísio, Belita Palma, alguns dos que, entre muitos, eu aplaudia. Éramos visitados por músicos superiores. Do Brasil, os da estirpe de Dorival Caymmi, Dona Ivone Lara, Chico Buarque, Clara Nunes e outros da envergadura de Martinho da Vila, Elba Ramalho, João Nogueira, Edu Lobo e Francis Hime. Do melhor que havia. De Cuba, marcaram presença Pablo Milanés, Sílvio Rodriguez, Carlos Puebla e outros incontestáveis. Só não veio Célia Cruz porque não tinha condições de vir. Do continente, a diva Miriam Makeba, Manu Dibango, Cesária Évora e Luís Morais aqueceram noites de grande show. A apresentação do extraordinário Ballet Nacional da Guiné Conackry no Cine Karl Marx, foi coisa bela, inesquecível. Apreciei-o em duas sessões seguidas.
Eu mal ouvia o cântico de igreja, a música gospel era praticamente desconhecida e o jazz galgava terreno, ganhava o seu espaço. Dava-se atenção à música de qualidade internacional, aos compositores e ao talento dos grandes artistas. Tentava-se a imitação do bom e atrevidamente do excepcional, guiados pela ideia de que tínhamos tudo para ser melhores em todos os domínios. A música e a arte eram refúgios, paliativos para a cura de feridas recentes e profundas que tinham atingido violentamente o povo. Ainda sangravam. Naquela prodigiosa década não tínhamos descoberto as bases em que assentava a venda ambulante nem o mais emblemático mercado popular de que reza a história angolana: o Roque Santeiro. Portanto, ainda não era possível fazerem-se comparações com a feira da ladra portuguesa, cujas virtudes eram cantadas por Sérgio Godinho. Mas a verdade é que os angolanos, engenhosos como poucos, mostravam sempre os seus pergaminhos. Não deixavam por mãos alheias, pelo menos, aquela enorme vontade de progredir no querer saber. Foram sendo criadas em diversas instituições e empresas, bolsas de estudo de várias origens, medidas e pesos cambiais e enviados para os mais diversos sítios do mundo, dezenas, centenas, talvez milhares de estudantes angolanos, para se formarem quadros em várias especialidades, em várias áreas do conhecimento. Ao longo dos anos e nos mais diversos itinerários políticos, especializaram-se em muitos domínios, aprenderam técnicas e saberes desconhecidos, de tudo um pouco. Contudo, foram nitidamente esquecidas três áreas importantes: as que envolviam professores, fiscais e tesoureiros. Imprescindíveis nos diversos sectores, sempre carentes de profissionais capazes, rígidos e leais, só eles têm efectiva noção da importância do ensino, do controlo e do que é fundamental na tesouraria nacional. São os que não se desviam nunca da linha. A propósito de linha, lembro-me de um camarada, no grupo de acção das seguradoras. Caramba! Quanto tempo, quanta saudade. Eu no alto da minha importância de coordenador, responsável, rigoroso, atento e obrigado. Elaborando e assinando relatórios e actas. A vitória é certa! O tal camarada, caiu na asneira de dizer em reunião, que havia ali desvios de linha. A maioria não tinha ideia do que seriam desvios nem compreendia o que era a tal linha. Na época era afirmação grave, podia dar sanção pesada. Não me lembro o que aconteceu ao camarada, mas tenho como certo que foi submetido a uma incómoda sessão de auto-crítica. Nunca mais ouvi falar de desvios de linha, nem do perigo que representavam. Muito menos de auto-crítica. É assim o tempo. É como a água, lava tudo.
Só ficamos a saber, muito tarde, é verdade, da falta que fizeram e fazem os professores, os fiscais e os tesoureiros, como também verificamos, já fora de tempo, que as centenas ou milhares de estudantes que se espalharam pelos quatro cantos do mundo para serem doutores e cientistas, regressaram ao país uns tantos, e outros, com razão ou sem ela, fizeram da deserção a sua opção. Se há a lamentar casos de fuga, também os houve de esquecimento. Esqueceram-nos simplesmente! Internamente, com estruturas de ensino frágeis pouco ou nada se fez. Formou-se o possível. E qual o resultado prático de tudo isso? Por um lado, umas forças armadas poderosas, das mais fortes do continente – só pode ser muito forte quem conta, segundo se diz, com cerca de seiscentos oficiais-generais na sua estrutura – uma fartura camaradas; por outro lado, um sistema económico, social e administrativo miserável, incapaz, em toda a sua dimensão, de ser explicado, nem mesmo pelos muitos doutores e cientistas, pelos muitos bolseiros que cuidam dessas áreas fundamentais do funcionamento da Nação. E para complicar o quadro, enquanto se aguardam as autarquias, forma-se um exército de quarenta/cinquenta mil autoridades tradicionais a colocar em causa o superior poder dos antigos Nganas Kuko, Ijico, Sabi, Vulola e outros, pedras basilares do direito costumeiro. Quarenta e cinco anos depois, balanceando a área da formação e dos seus efeitos no desenvolvimento do país, temos, desoladoramente, de um lado, os comprometidos com o fracasso e de outro, as vítimas de tão pobre educação. E no meio de gente que lança altos gritos a reclamar o estatuto de únicos e inigualáveis patriotas dignos, alguns políticos pusilânimes e outros que aqui e ali vão mostrando carácter de bravata. Encontram-se ainda os que envelheceram desconseguindo, e os novos de quem não se sabe sequer o que valem. Pouco se mostram e revelam, perigosamente, arrogância e já alguma mesquinhez ideológica. É tudo uma obra grande para ser apreciada e ajuizada um dia mais à frente, quando os cientistas de verdade aportarem nestas paragens.
E aqui vamos nós, sempre animados de uma vontade enorme de evoluir, mas incapazes sequer de replicar às terças-feiras cantadas pelo Godinho, dando apenas um arzinho da nossa graça nas quartas-feiras das cinzas de um carnaval moribundo. Já sem as vestes de antigamente, com vergonha de percorrerem com alegria os bairros em peditórios de comida e bebida para acabarem em beleza a festa grande. Sempre orgulhosamente. Já se passaram tantos anos que começa a ser difícil recordar coisas de antigamente. Mas as de há quarenta e cinco anos ainda vou lembrando. E vem o lado mau do meu íntimo a perguntar a razão do hino para os quarenta e cinco anos. Melhor seria nos cinquenta. Não acham? Porque meio século é meio século! Os quarenta e cinco podem lembrar-se com imagens desse tempo em que havia dinheiro mas não havia comida. Quando a doença não tinha a gravidade do coronavírus e era apenas paludismo. Lembrar a eterna falta de protecção para esse mal que perdura, agora na disputa da eleição, com o covid-19. Quem é mais perigoso? Recordar a acrescida fome explícita, todos os dias, em muitos lugares do país, inclusive na capital. E tentar fazer um esforço para esquecer esses anos todos que não são poucos, de festivais de artistas em desfile, não os que ajudam nas cestas básicas, mas os obesos do sistema, artistas de todos os dias, com caderneta passada, a gingarem nos sítios habituais e do costume. Nos corredores onde passeia o dinheiro.

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