Opinião

A retoma nos países da SADC após a Covid-19

Augusto Teixeira de Matos |*

A crise económica que o mundo enfrenta de momento apresenta sinais de agravamento no futuro, em toda a esfera terrestre, deixando impotentes os governos, de países pobres ou ricos, e ficando todos de igual modo na balança sem discriminação.

As organizações internacionais multilaterais, detidas maioritariamente pelos países ricos, concedem empréstimos em condições mais favoráveis, com taxas de juro mais baixas e períodos de pagamento mais longos do que os bancos privados. O Fundo Monetário internacional faz empréstimos de grande escala a curto prazo aos países em situação de crise financeira, isto é, crises na balança de pagamentos, e que não conseguem créditos no mercado privado.
A balança de pagamentos regista a posição de um país em relação às transacções económicas com o resto do mundo. Assim, acontece uma crise de balança de pagamentos, quando um país está a pagar a outros países mais do que recebe, de tal maneira que ninguém estará disposto a emprestar-lhe dinheiro e como consequência disso o resultado típico é o pânico, seguido de uma recessão profunda.
Ao conceder créditos de emergência a países nessa situação, o Fundo Monetário Internacional permite-lhes ultrapassar essas crises com menos consequências negativas.
O Banco Mundial concede empréstimos para projectos de capital, ou seja dinheiro para projectos de investimento, como barragens, estradas e outros.
Ao conceder empréstimos com prazos de maturidade mais longos e/ou taxas de juros mais baixas do que o oferecido pelos bancos privados, o Banco Mundial permite que os seus clientes invistam de forma mais agressiva do que seria possível de outro modo.
Porém, estas instituições financeiras multilaterais exigem a adopção de políticas económicas específicas por parte desses países a quem emprestam dinheiro, sendo especialmente criticados por imporem condições que os países ricos julgam ser favoráveis, mas que na realidade não irão ajudar os países devedores.
Isso acontece porque estas instituições funcionam com a regra de um dólar, um voto e os maiores accionistas são os países ricos que, por essa razão, são eles que decidem o que se deve fazer.
As organizações internacionais, e em particular, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. parecem impotentes para ajudar a conter a crise económica e financeira que afecta indiscriminadamente toda a humanidade, agravada pela crise sanitária da Covid-19, provocando, pois, uma recessão global, que atinge todos os países, ricos ou pobres.
A sua dimensão é de tal ordem e grandeza, talvez maior que a crise da Grande Depressão de 1929, que se torna naturalmente difícil estabelecer prioridades no apoio a ser prestado aos países membros, no sentido de viabilizar as economias para o período pós-Covid .
Para estas instituições, é na direcção dos países como os Estados Unidos da América, da União Europeia e outros, que estão voltadas as suas atenções e prioridades, em todo o processo de retomada do crescimento, em detrimento dos países pobres ou em vias de desenvolvimento, dadas as suas condições de favorecimento tradicionais desde a sua criação.
A democratização, que parecia estar a acontecer no seu seio, ficou posta em causa pela impossibilidade de satisfazer ao mesmo tempo todos os seus membros em dificuldades, derivadas da crise e por essa razão as decisões não parecem ser, para esses países, coerentes com os seus interesses e com as suas necessidades e prioridades.
Assim sendo, torna-se imperioso, do nosso ponto de vista, que os países africanos, sobretudo os da região da África Austral, que sempre ficaram relegados à sua sorte, se unam de modo a estarem preparados para a retoma do pós - Covid, contando em primeira instância com as suas próprias forças.
Angola constitui um exemplo flagrante de como os países desenvolvidos trataram de forma negativa a retomada do seu crescimento económico depois da destruição do país, ao incentivar uma guerra desumana e sem objectivos, com promessas vãs para a sua reabilitação e reconstrução nunca concretizadas.
Perante estas amargas experiências parece ter chegado o momento de os países da região austral do continente fortalecerem a unidade e agirem, criando um fundo estratégico para o desenvolvimento, que lhes permita contar com as suas próprias forças para poder fazer face aos efeitos nefastos da crise, que tudo indica ser de longa duração.
Finalmente parece ter chegado a hora de Angola e a África do Sul assumirem, com coragem e determinação, a liderança deste projecto de solidariedade que acolherá as boas vontades não só dos países da SADC como também de outros países e continentes interessados, incluindo aquelas instituições de Bretton Wood, num quadro fraterno e de amizade. Angola antecipadamente já preconizava essa liderança aquando da sua adesão ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial em 1989, dada a sua posição geoestratégica no mundo, que só espera colher exemplos portadores de benefícios para a humanidade.

*Antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco Nacional de Angola

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