Opinião

A socialização do palavrão

Carlos Calongo

Antes do apogeu da sociedade exponenciada pela internet, grande número de angolanos vivia parte das suas vidas numa comunidade fechada, onde todos se conheciam e a relação íntima ratificava o conceito alargado que se atribui à família africana, que vai para lá do cruzamento de laços biológicos.

Naquele tipo de ambiente, com limitações de vária ordem, às pessoas foram incutidos valores ético-morais que as tornaram, de certo modo, aptos para a convivência social,independentemente dos grupos em que estivessem envolvidos.
Naquela altura, a vizinha, em momento nenhum era somente a senhora da casa do portão vermelho ou a senhora fulana. Pelo contrário, era a extensão das nossas mães biológicas cujo labor diário, pela nossa sobrevivência, as obrigava a largas horas de ausência dos lares.
A guarda temporária a que nos submetíamos sob responsabilidade das tias/mães/ mamãs, em nada tinha de repugnante, pois não se notava diferença na forma de tratamento numa e noutra realidade, o que pode ser considerada como uma das razões para que os hábitos e costumes fossem cultivados na mesma perspectiva comunitária, formatando bons cidadãos, alguns deles exponenciados com o sentimento patriótico que determinou a luta pela Independência Nacional.
Em casa que apesar de ser alheia era como se fosse nossa, no processo de educação, - e não dissemos instrução-, também estava exposta a “maria das dores”, que no seu valor pedagógico ajudou a termos o formato de cidadãos cordatos, que nem mesmo na agonia da dor de uma régua maria, nos permitíamos ao dislate com a norma que hoje se observa.
O tempo passou. Com ele se alteraram os hábitos. Alguém leu, algures, que “as coisas velhas se tornaram novas (?) ”. Infelizmente, neste cortejo de “modernices” a vulgaridade passou a ganhar estatuto de socialmente aceite, numa nova configuração do espaço que temos por herança e pertença públicas.
Na luta entre o velho e o novo, sobretudo aquelas que se resumem na perda de valores de ética e moral, a batalha continua, no sentido de salvar o possível e resgatar o que se foi.
Nisso se afigura o resgate pela socialização do palavrão.
Talvez somos obrigados a perceber que as mudanças, sobretudo as que nos remetem para as coisas negativas, tenham acontecido porque, hoje por hoje, passa-se muito tempo com pessoas estranhas à nossa realidade sócio cultural.
Actualmente é comum soltar-se o maior palavrão quando somos surpreendidos, ficamos encantados, divertidos, assustados, confusos, ou nos identificamos com uma determinada pessoa ou situação.
Estes padrões de fala tornaram-se parte integrante do comportamento de muitas pessoas de todas as idades e níveis de educação.
Não restam dúvidas que, esse tipo de linguagem, antes considerada repugnante e de todo mal-educadas, tornou-se socialmente aceitável, muito provavelmente por uma tão grande e variável série de razões, cuja cura deve ser procurada em dimensão multiplicada, atendendo o nível de estragos que o fenómeno provocou no nosso ordenamento social.
A socialização do palavrão retirou de cena todo um conjunto de boas maneiras, ao ponto de muitas pessoas considerarem a liberdade de uso de palavras ofensivas em toda e qualquer parte e lugar, como um direito constitucional relacionado com a liberdade de expressão.
O direito conferido pela Constituição da República de Angola ou a carta dos direitos humanos, de usar e dizer o que nos convém e quando quisermos, deve nos colocar cientes do impacto que as nossas palavras podem causar noutras pessoas e naquilo que elas, as palavras, comunicam, a respeito do seu autor.
Disso, imaginamos, o que valem as pessoas que socializam o palavrão!

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