Opinião

A Teresa que não era de Calcutá

Arlindo dos Santos

Lembrei-me da minha amiga Teresa, aquela mesma, a tal que nunca me revelou o seu apelido, talvez não o tivesse, a que, naquele período que durou a nossa convivência, se chamava simplesmente Teresa.

Aconteceu num destes dias em Lisboa, quando ia apanhar o Metro, na estação do Areeiro. Lembrei-me da Teresa porque foi nessa estação, aí há pouco menos de quarenta anos, que eu a vi pela última vez. Um encontro de triste recordação, por sinal.
Ela não tinha as virtudes da Madre Teresa, a de Calcutá, a santa que nós aprendemos a conhecer. Longe disso, ela era, ao contrário, uma mulher cheia de defeitos, contando no seu inventário mais alguns do que aqueles que os comuns mortais costumam ter. Deixava escapar alguns pecados pelo meio da personalidade. Misturavam-se com a bela e longa cabeleira preta que lhe caía em trança pelas costas, a realçar a sua tez morena de índia, o corpo delgado a transpirar sensualidade quando caminhava. Eram uns argumentos que faziam dela mulher especial. Muito especial mesmo. Tinha defeitos mas era bonita e, caramba, era minha amiga. Pelo menos, eu pensei que fosse e por isso a considerava como tal.
Nunca se despreze o poder de uma ideia, disse Luís Fernando Veríssimo. Foi com o poder dessa ideia que passei, um ror de tempo depois de a ter conhecido, a desconfiar das coisas vindas do nada. A nossa amizade tinha vindo do nada, apesar de ter acontecido naquele tempo bonito em que nada, significava de facto o vazio, ou coisa igual ao pecado de se negarem favores. Não foi por vivermos o tal tempo, mas porque já era minha norma. Não costumo negar favores a ninguém por princípio. A verdade é que, os favores que eu fazia à Teresa, eram demais. Só mesmo uma sólida amizade justificava a minha permanente disponibilidade. O que não fiz eu por ela! Apesar do nosso relacionamento ser relativamente recente, foi ganhando tamanha confiança que cheguei ao cúmulo de, no tempo das dificuldades maiores, me ter comprometido em dia certo da semana, a dar-lhe boleia para levar a roupa do seu namorado – um daqueles sortudos que nunca sabem a sorte que têm – , roupa essa que ela se encarregava de lavar e engomar com esmero e que, como disse, até tinha direito à recolha e entrega ao domicílio.
Pois, essa mesma Teresa que andava comigo para todo o lado, que se habituou a ouvir os meus lamentos e as minhas confidências mais íntimas, algumas delas só confessadas a amigos do peito, que me sujeitava às constantes críticas do meu pai por causa das chamadas telefónicas que fazia para o aparelho do velho – nessa altura nem toda a gente tinha telefone – , lamentavelmente desconhecia os valores da reciprocidade. Mais tarde, bem mais tarde, fiquei a saber que a Teresa pertencia àquele grupo de pessoas que só se interessam por si mesmas e, portanto, só confiava nela própria. Só mais tarde descobri o quanto era fingida. Às escondidas, inclusivamente do namorado da roupa lavada, a Teresa, que não era a madre de Calcutá, nem pouco mais ou menos, mudou de comportamento. Deixou de comparecer, deixou de abrir a porta, deixou de telefonar, deixou de me procurar para buscar ou levar a roupa. O namorado sortudo deixou de o ser e procurou-me aflito, andava mal arranjado, com a roupa amarrotada, enfim, muito preocupado. Pudera! Procuramos por ela e ficamos a saber que a Teresa, sem dar cavaco a ninguém, ciente de que o segredo sempre foi a alma do negócio, tinha começado a namorar um senhor mais velho e endinheirado, inquilino do prédio onde morava. Legitimamente a preparar o futuro, procurou melhor condição social, não tinha mais que se preocupar com o transporte de roupa para frente e para trás, agora ela já tinha alguém a tratar da sua própria roupa. O moreno da pele, a trança, o jeito de levantar o ombro, o andar malandro e o cativante sorriso ajudaram muito a convencer o curtido branco alheio.
Num belo dia, sem se despedir dos amigos das festas e dos piqueniques, dos passeios e das “levinhas”, das praias e dos caldos das madrugadas, sem qualquer explicação, passou a outro tipo de organização da vida e evaporou-se da circulação e da vista de todos os da malta. Lembrei-me da Teresa, a que não era de Calcutá, naquele dia de há quarenta anos, no Areeiro, quando lhe perguntei se ia apanhar o Metro e ela, vaidosa como sempre foi mas como nunca eu a quis ver, respondeu, sacudindo a trança e levantando o ombro, com aquele jeito de soberba que a caracterizava, “eu, hein, andar de metro? Não ando de transporte público!”. Pensei nela e fiz apelo aos meus santos para a poder um dia encontrar, ali mesmo, na estação do Areeiro, não à boca da entrada, mas na fila, a apanhar o comboio. Mais velha, certamente, sem o dinheiro do tempo burro, não sei se ainda com trança e com gestos vaidosos de ombros. Como eu gostaria de poder dizer-lhe na cara, disparando como mesmo ímpeto com que o fazia o meu contemporâneo Estevão Marcelino, useiro e vezeiro em situações que o colocassem perante alguém a enfrentar um revés, “uanga uabo?”. Traduzido literalmente do kimbundu, feitiço acabou?

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