Opinião

A vaidade

Fragata de Morais

Em Eclesiastes1 ouvimos as palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém. Diz ele, vaidade de vaidades, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade, "Vanitas vanitatum et omnia Vanitas".

Pergunta-se sobre o proveito que o homem tem de todo o seu trabalho que faz debaixo do sol, entre muitas mais questões de ordem filosófica como nos fazer ver o óbvio, que nasce o sol, e o sol se põe e apressa-se a voltar ao seu lugar de onde nasceu. Esta angústia contínua chegou a criar uma escola, as Vanitas que são uma expressão artística, dos séculos XVI a XVIII, sobretudo na Holanda e que transmite esse nosso relacionamento problemático com a morte, com a nossa finitude.
Será pois a partir desta falta de reconhecimento que muitos se deixam iludir ou enganar pelas futilidades que os tentam no dia a dia, embrulham-se com o manto do apego doentio às riquezas deste mundo, banham-se no vazio evidente da ostentação, chafurdam na precariedade passageira dos prazeres mundanos
Com o acesso generalizado às redes sociais pronto se nota esta Vanita que chega á borda do ridículo ao se pretender, a todo o custo, ter existência reconhecida. Vemos, assim, desfilarem negras e mulatas com longos cachos de caracóis europeus loiros ou ruivos, com roupas e malas de marca verdadeira ou falsificada mas que revelam o valioso nome reconhecido.
A vaidade a custo zero certamente que não existe. O dia chegará em que a diva reconhecerá a sua carência afectiva, a sua frustração emocional que tenta não revelar numa pose de modelo com óculos Coco Chanel ou Dior e restar-lhe-á, talvez, a memória do tempo perdido e as lágrimas.
As revistas, a publicidade, os padrões individualistas que as modernas sociedades adoptam, vão transformando ambos os géneros num exemplar cada vez mais unisexo, por vezes bem difícil de distinguir quem é quem nessa salada. Os salões da formosura efémera o comprovam, os produtos para a beleza são os mesmos, já não fica mal para homem usar camisa e meias cor-de-rosa, tanguinha provocadora na praia e deixar um rasto de perfume que nem as moscas resistem.
A vaidade é, assim, coisa comum. Os estereótipos quer femininos, quer masculinos são cada vez mais esbatidos e alterados, todavia, a vaidade, às vezes pode-nos conduzir a situações menos agradáveis, como no caso de uma amiga, a Fina, com cerca de trinta e cinco anos e que sofrera um grave acidente de viação que a deixara em coma durante algum tempo. Nós, os amigos, passámos uns momentos maus até que ela começou a melhorar, altura em que fui visitá-la na clínica por várias vezes. Numa dessas ocasiões, contou-me que, enquanto se encontrara em coma, tivera uma visão onde lhe apareceu o Criador e ela perguntara-Lhe se estava morta, ao que Este lhe respondera que não, ela ainda iria viver mais umas largas décadas. Contou-me isto irradiando um fulgor estranho, e fartou-se de planificar, já que sabia de fonte insuspeita que iria viver pelos menos mais quarenta ou cinquenta anos, em como queria ser fisicamente para arranjar marido, estando as coisas difíceis nessa esfera.
Exsudando alegria, não obstante ainda a perna esquerda pendurada alto, e a cabeça meio enfaixada, segredou-me que tão cedo dali se livrasse, iria fazer uma plástica geral, aumentar os seios, tirar todas aquelas gorduras à volta da barriga e das ancas, colocar botoque no rosto, enfim, já nem me lembro de tudo, tão grande seria a recauchutagem que lhe permitiria outros cem mil quilómetros.
Mais tarde, soube que se deslocou ao Brasil, onde efectivamente se transformou, conforme o seu sonho. Ninguém mais dizia que era a mesma pessoa, a Fina conhecida de muitos. Imaginem pois a surpresa e a consternação quando tive conhecimento que, um dia antes de embarcar de regresso para Angola, fora mortalmente atropelada no Rio de Janeiro.
Passei semanas aturdido com o caso e, após muito matutar, conclui que, face à promessa que o Criador lhe fizera e que a levara com tanto optimismo a transformar o seu corpo, Este unicamente permitiu que ela fosse atropelada, quebrando assim a Sua palavra, por absolutamente a não tê-la reconhecido.

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