Opinião

A verdade

Fragata de Morais

Segundo o Padre Anderson Alves, doutorado em Filosofia na Pontifícia Universitá della Santa Croce, "o relativismo e o ateísmo absolutos são incompatíveis. Pois quem afirma ser verdade que Deus não exista, não poderia negar a existência da verdade.

De modo que o ateísmo absoluto nos mostra que relativismo não pode ser absoluto, só pode ser relativo. E isso é comprovado se partimos da afirmação dos que dizem que o relativismo não nega a existência da verdade, mas somente diz que ela é sempre relativa.
De facto, a afirmação de que “tudo é relativo” é muito comum nos nossos dias e pode significar algo equivocado e também algo certo. Equivocado quando quer significar que duas afirmações contraditórias podem, ao mesmo tempo, ser verdadeiras.
Pois quem afirma isso deveria aceitar que duas afirmações contraditórias não podem ser contemporaneamente verdadeiras (uma vez que essa é a contraditória da afirmação anterior).
Mas quem diz que duas afirmações contraditórias podem e não podem ao mesmo tempo ser verdadeiras, não sabe realmente o que fala. “A inteligência e a linguagem humanas, se querem continuar sendo reconhecidas como tais, não aceitam contradições”.
Ao ler o que acima citei fiquei confuso talvez pela falta de bagagem intelectual suficiente para chegar ao âmago da questão, um pouco como tentar saber o sexo dos anjos, sobretudo por não ser eu doutorado em Filosofia nem pela Universidade do Catambor e muito menos pela aquela em que o reverendo Padre se doutorou.
Uma vez ouvi um homem famoso afirmar na televisão, que entre Deus e a verdade, ele escolheria Deus.
Fosse qual fosse a verdade que tivesse que se tornar mentira, deduzi.
Sem desejar revelar ironia ou pessimismo, acho ser essa a regra do jogo, sendo os maiores mentirosos aqueles que se escudam atrás de Deus ou, como os rafeiros, atrás da Pátria. Cedo aprenderam que, emocionalmente, ambos estão sempre lá para os proteger.
Escolhendo Deus sobre a verdade, tornam-se mais fácil os desígnios pessoais ou colectivos, queima-se, para exemplo e sem qualquer compunção, uma Kimpa Vita, uma Joana d’Arc; o Mundo deixa de ser redondo e passa a ser plano; a Terra gira à volta do Sol e por aí fora, sempre com a certeza de que as nossas consciências estarão limpas, não obstante os nossos actos.
Deus vira uma abstracção, um conceito relativo segundo a conveniência, e a verdade vira a palavra maleável, a plasticina com a qual moldamos as nossas intenções últimas e às vezes macabras, como nos provam todos os Hitleres, os Bokassis, os Idi Amins, os Pol Pots da História da humanidade, sem falar na Santa Inquisição, durante séculos sanguinários detentora da verdade absoluta..
É facto que o Homem, monoteísta ou não, invariavelmente escolheu deuses que se parecessem consigo e com a sua interacção com a Natureza, englobado tudo o que ela tem de telúrico. Deuses ferozes, vingativos e sem contemplação, que se manifestavam através do trovão, da espada justiceira e portanto revestidos, pela mão do Homem, de uma moralidade imperdoável que apaziguasse uma ira divina que nada a poderia justificar.
O Deus do Antigo Testamento pede a Abraão que lhe sacrifique o filho.
Há anos, na horrenda desgraça que foi o Tsunami, as mesquitas ficaram de pé, talvez pela sua arquitectura em que predominam as aberturas, os claustros, dando assim vazão à água e, por esse facto, também aqui, para os islâmicos, Allah, sobrepôs-se à verdade, à miséria humana, à pobreza, à falta de meios técnicos de detecção, e por esse facto, desapareceram da face da Terra cerca de 30000 pessoas, sem falar dos seres do chamado reino irracional.
Na verdade, ou melhor dizendo, na verificação das leis da física que regem o(s) Universo(s), este mesmo Universo não se compadece ou contempla a moralidade, a felicidade humana, ele move-se como uma máquina de engrenagens bem oleadas e em funcionamento ininterrupto de acordo com essas mesmas leis.
De modo algum estou a pôr em causa a crença, a existência de Deus, mas sim a reflectir sobre os caminhos que o Homem inventa a fim de que possa dizer, sem reservas, que acima de tudo está aquilo que ele pensa ser a sua consciência, ou a tranquilidade da sua consciência.
Só assim o Homem consegue colocar Deus acima da verdade, como uma fatalidade, porque, ultimamente, Ele será o responsável de todos os gestos, de todas as acções humanas, como o queimar das matas, o poluir dos oceanos e da atmosfera, as guerras de todos os tipos e, finalmente, da sua própria destruição.

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