Opinião

A alegria trágica

Adriano Mixinge |*

Olhar o boneco da politica, do sexo e da democracia em Angola é, parafraseando Vincenzo Susca, falar de uma alegria trágica. Caracterizar através de imagens as tão rápidas, quão densas mudanças que se vão verificando na sociedade angolana tem algo de alegre, profundamente motivador e fascinante.

E, também, muito de triste, trágico e repugnante. As representações públicas da politica, do sexo, da democracia parecem ir de mãos dadas e, se por um lado, causam euforia, exaltação e frenesim, por outro, causam arrepios, medos, tristezas e desassossegos.
Em Angola, nunca a iconografia politica tinham abarcado tantas nuánces. Nunca tanto sexo e obscenidade tinham sido expostos, nunca a democracia pareceu tão mais confusa, nunca se pensou que nasceriam tantas atitudes como, também, nos afogariamos no dinamismo da dispersão politica e partidária. Nunca tantos bonecos serviriam para descrever o dinamismo de uma sociedade, em que o fosso entre os ricos e pobres é cada vez maior, mais notório, significativo e preocupante.
Nunca antes houve tanta resistência e indiferença assumidas.  E com elas, estamos certos, começou já a regeneração socio-geracional, a refundação da politica, as transformações económicas e culturais que os angolanos precisam.
Na encruzilhada entre as iconografias, o sexo e a democracia circulam, sobretudo, nas redes sociais, alguns dos mais candentes problemas com que a sociedade angolana actual se debate: o que se vê e o que se escuta, entre os que estão dentro de Angola e os que estão na diáspora, entre o que somos e o que  aparentamos ser, entre os que têm e os que não têm. O que sentimos e o que demonstramos sentir, as identidades sexuais e sociais que encarnamos ou as que nos permitem assumir, a mistura de democracia em gestãção e os resquicios da ditadura que escenificamos, mas que não admitimos como tal, as riquezas do país e a maneira como as distribuimos: o que é, de facto, sério é como os poderes utilizavam as imagens para distrair, anesteciar ou adormecer os espiritos e a crítica.
Existem bonecos que representam alegrias e tristezas, angústias e esperanças: “Olha o boneco”, a música da Titica e da Ary representa alegria. A série de imagens da campanha “acaba de me matar” é de um sarcasmo angustiante. Ainda que pareça paradoxal, as imagens dos lavadores dos pés e calçados enlamaçados à saída dos mercados que a TV Zimbo tão realista registou são imagens esperançadoras, porque eles não aceitam a pobreza, porque elas dinamitam a nossa indiferença.
Como um pouco por todo o mundo, nos últimos quarenta anos, a iconografia politica em Angola variou significativamente, tem estado sempre em sintonia com as dinámicas politicas, ideológicas, socio-comportamentais e cívicas que a sociedade foi testemunhando.
Na maior parte das vezes,  desprovisto de uma educação artística propriamente dita, o desejo de representar ( a narrativa, os simbolos e os slogans politicos, a história dos partidos politicos, a luta pela independência nacional, a euforia pós-independentista, a diferença entre os lacaios do imperialismo e os revolucionários socialistas ou, simplesmente, um programa politico e de governo) através de imagens parece ter obedecido, entre nós,  a noções da estética, de comunicação e do gosto pouco pulidas. Mas, isso não diminuiu a sua efectividade comunicativa e propagandistica.
Herdeira da iconografia dos totalitarismos, muito particularmente de uma acepção primária do Realismo Socialista, uma vez que não obedecia a um academicismo anatómico e figurativo daquele, no periodo da luta de libertação nacional as imagens eram muito básicas, as cores circunscritas (por exemplo, o camuflado para os militares, azul claro e escuro para o  fardamento da organização de pioneiros), as técnicas (cartazes, pintura mural) acorde com a época.
Visto desde uma perspectiva apartidária, questões de ordem estética, situadas entre a educação patriótica, cívica e politica e a educação artística e cultural,  a questão das iconografias políticas, do sexo e da democracia em Angola é um óptimo termómetro para auferirmos o estado de coisas, o lugar do cidadão na politica, todas nossas alegrias e tragédias. A representação de “Os monólogos da Vagina” de Eve Ensler com encenação de Miguel Hurst e que, neste mês de Março, se exibirão na Casa das Artes, em Talatona, é um reflexo de parte de este universo violento.
O fenómeno do Polbusting, que Vincenzo Susca no seu livro “Alegria trágica. As formas elementares da vida electrónica” define como “um terreno de ensaio onde os internautas praticam o acto de desmontar e ridicularizar o corpo politico, actuando directamente  na sua carne simbólica, transfigurando-a pela sua marca, desencadeada ao mesmo tempo pela sede de diversão e por um instinto incendiário” é o que, agora, abunda nas redes sociais.
Na mesma ordem de ideias, Vincenzo Susca, entende que o fenómeno do Polbusting “é um gesto de provocação pós-dadaísta que não prevê qualquer trabalho ou projeto futuro, mas que, ao contrário, se conforma com a expressão de uma sensibilidade lúdica com os acentos transpolíticos...”.
Entre nós, nos últimos anos, foi se desenvolvendo uma história por imagens, desde muito antes,  incluindo desde os momentos mais tensos, passando por pouco antes das eleições gerais de Agosto de 2017 e que continua até agora, é um fénomeno imparável. Para os interessados poderão encontrar online as imagens do Projecto Kissonde que, ao meu ver, foi e é a expressão ideal do fenómeno do Polbusting, no universo da politica em Angola, uma técnica que foi muito utilizada pelos activistas do processo 15+ 2 e que, de certa forma, contribuiu  através do site centralangola7311.net para manter a coesão do grupo, em todas as circunstâncias e sob todo tipo de pressão possivéis.

    *Historiador e Crítico de Arte

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