Opinião

A aposta na educação é isenta de impostos

Luciano Rocha |

Raríssimos foram os angolanos a frequentar cursos superiores no tempo colonial, que apenas começaram a ser esboçados entre nós após o início da Luta Armada de Libertação Nacional.

Naquele tempo, a barreira que impedia a maioria dos angolanos de concluir um curso superior apenas era possível transpor se a família fosse endinheirada, alguém dela, normalmente o pai, pedisse um empréstimo que levava uma vida a pagar ou por “obra e graça” de uma bolsa, quase sempre concedidas por Igrejas cristãs. Embora mais incomum, houve casos dos próprios interessados, após concluírem o ensino secundário, começarem a trabalhar para mais tarde custearem os estudos. Também, ainda menos, os de atletas contratados por clubes portugueses que aproveitaram a oportunidade para tentarem adquirir formação universitária.
A decisão de estudar em Portugal saía cara. Além da viagem - primeiro de navio, mais tarde de avião - havia a estada em quartos de casas particulares com banhos semanais contados, pensões manhosas, Repúblicas -, alimentação, vestuário, material escolar, correio para a família. A juntar a tudo isto, frio e saudade: da família, amigos, sol, cheiros e sabores. E estranheza por comportamentos.
Amigo de adolescência, poucos dias após chegar a Lisboa, para onde fora estudar, escreveu-me uma carta “de só visto, contado ninguém acredita”. Luanda era, então, uma pequena cidade. De conversas de quintal para quintal. Ou à frente da porta da rua. Em noites quentes sopradas pela brisa boa que vinha da Ilha. Ou pelo “vento maluco” de remoinhar a areia vermelha no seu aviso “a chuva que está a chegar”. Não havia televisão. O Rádio Clube de Angola encerrava a emissão às dez da noite. A Emissora Oficial de Angola, antecessora da Rádio Nacional, não passava de projecto a instalar no Quilómetro Sete. Portugal era país atrasado. Lisboa também, mas fascínio para muitos angolanos, que a imaginavam cidade moderna. Por isso, o meu amigo de adolescência pasmou, “de boca para nuca”, ao assistir na paragem do maximbombo o total desrespeito pela fila de espera. Todos a tentarem entrar primeiro. A acotovelarem senhoras, mesmo grávidas, idosos, crianças, deficientes físicos. Num “salve-se quem puder”. Como se delicadeza e educação fossem palavras riscadas dos dicionários. Ao ler a carta, ri, como riram todos a quem contei o que ela dizia. E chamamos-lhe “aldrabão, ‘regador’”.
Hoje, ao ver em que se transformou a nossa cidade, recordo repetidamente aquela carta. Também entre nós há cada vez mais quem não respeite princípios elementares da convivência em sociedade. A grande metrópole que é Luanda não justifica tudo. A educação é dada em casa. Vem do berço. Seja ele de seda bordada a ouro e cravejada de diamantes ou modesto luando. Não tem nada a ver com instrução, que recebemos na escola, nem dinheiro.
Todos conhecemos pessoas instruídas e abastadas - com canudos e mais canudos académicos, contas bancárias chorudas, cartões de crédito de todas as cores - e mal-educadas. Também há o contrário. Iletrados a primarem pela cordialidade, conhecedores dos princípios da convivência. Estes “são damas e cavalheiros”. Os outros, arremedos.
O angolano, na generalidade, é - sempre foi - educado, cordial. Mas, agora que não precisa de sair do país para estudar, parece aumentar o número dos que revelam falta de princípios elementares de convivência. É altura de tentar atalhar o problema. Antes de se tornar regra.

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