Opinião

A certeza irrefutável

Filipe Zau | *

De acordo com o FNUAP – Fundo das Nações Unidas para a População – o Mundo atingiu 6 mil milhões de habitantes em 12 de Outubro de 1999.

Quase metade tinha menos de 25 anos e mais de mil milhões eram jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos. O acelerado crescimento populacional e a substituição de culturas alimentares por culturas de rendimento avolumou os já de si complexos problemas dos países em desenvolvimento, particularmente em África, agravando-se assim os problemas relacionados com a fome, a extrema pobreza, a desertificação das zonas rurais, o crescimento urbano desordenado e a emigração.
Na realidade, nem sempre a ausência de progresso económico e bem-estar social dos africanos reside na falta de recursos humanos para a resolução dos seus próprios problemas. A questão principal reside na fixação dos recursos humanos já formados no próprio continente, muitos deles altamente qualificados. Diz-nos o relatório de 1992 do PNUD que os países em desenvolvimento perdem, todos os anos, milhares de especialistas (engenheiros, médicos, cientistas e outros técnicos), frustrados com o baixo salário auferido e pelas fracas condições de trabalho que lhes são oferecidas. Daí que, mesmo em condições difíceis de clandestinidade (onde chegam a colocar em risco as suas próprias vidas), procurem emigrar para os países industrializados, onde os seus serviços e a sua competência possam ser melhor utilizados e remunerados.
Por vezes, chega mesmo a haver uma sobreprodução de recursos humanos, como é o caso da Somália que na década de 80 formava cinco vezes mais diplomados universitários, em relação aos que podia dar emprego. Já na Costa do Marfim, a taxa de desempregados diplomados chegou a atingir 50 por cento. Também no Ghana, 60 por cento dos médicos formados nos anos de 1980 passaram a exercer a sua actividade profissional no estrangeiro, o que provocava carências aflitivas de pessoal nos serviços de saúde. Calcula-se pois, de acordo com o Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento Humano de 1992, que África tenha perdido, no seu todo, 60 mil quadros médios e superiores entre 1985 a 1990.
Em contrapartida, os EUA e o Canadá acolheram entre 1960 e 1990 mais de um milhão de quadros superiores e técnicos vindos dos países em desenvolvimento. O próprio ensino nos EUA assentava em grande parte neles. Em 1985, por exemplo, estimava-se que nas escolas de engenharia metade dos assistentes com menos de 35 anos de idade fossem estrangeiros. O Japão e a Austrália começam também a esforçar-se para atrair emigrantes altamente especializados.
Esta perda de mão-de-obra especializada acaba por constituir uma perda substancial de capitais. O serviço de investigações do Congresso dos EUA calcula que, no período entre 1971 e 1972, os países em desenvolvimento terão perdido um total de 646 milhões de dólares. Ou seja, 20 mil dólares de investimento por emigrante especializado. Esta perda é apenas, em parte, compensada pelas remessas de fundos enviados pelos trabalhadores emigrantes.
Também o sociólogo camaronês Jean Marc Ela afirmou, no seu livro “Restituir a história às sociedades africanas”, que a razão para o fracasso de muitos projectos de desenvolvimento na África sub-sahariana nem sempre está relacionado com a falta de quadros ou, até mesmo, com a falta de recursos financeiros. Os projectos também falham, porque os planificadores e os peritos subestimam os factores sócio-culturais. Daí que não hajam “sociedades economicamente desenvolvidas sem o aporte das ciências sociais.” Nesta ordem de ideias, só os governos dos Estados africanos poderão criar as condições necessárias para uma progressiva dignificação dos seus quadros, indispensáveis ao seu próprio desenvolvimento.
Dizia, em 1990, o maliano Baba Akhib Haidara, ex-Director do Bureau Regional para o Desenvolvimento da Educação em África (BREDA), que o conceito de endogeneidade remete-nos para as fontes das chamadas tradições africanas mas, evidentemente, sem se perder de vista o imperioso desejo de progresso e de modernização abertos à comunidade.
Se não forem os governos dos países africanos a procurem esse caminho, defendido por eles próprios, em 1980, através do Plano de Acção de Lagos, aprovado à época pelos chefes de Estado da ex-OUA, ninguém mais o fará em sua substituição. Podemos, desde já, concluir isso como uma certeza irrefutável.

* Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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