Opinião

A criminalização da vítima

Luísa Rogério |

Dois jovens encontram-se no meio de transporte colectivo mais comum em Luanda, o nosso candongueiro. Vestem batas brancas. A animada conversa ganha toque de suspense quando um pergunta ao outro: “Já recebeste o filme daquela miúda?” Não espera pela resposta para accionar o dispositivo.

Seguem-se explicações exaustivas para fazer o enquadramento do vídeo que se apressa a partilhar com o colega enquanto tem saldo. Em pouco tempo narra os contornos da violação de uma rapariga de 17 anos por cinco rapazes, incluindo um suposto amigo que a convidara para uma festa. Segundo o “distribuidor” do vídeo, que zomba do desespero da moça, à medida que cada um deles sacia os desejos doentios, os demais celebram com vinho espumante.
A conversa atulhada de detalhes asquerosos toma conta do candongueiro lotado. Alguns passageiros dão palpites. Encorajado, o estudante continua a partilhar informações. O outro jovem de bata branca junta-se à cavaqueira nada amena. Salienta que a miúda, “armada em muito bonita”, gosta de dar “tampas”. Uma boa fingida, com aquelas roupas convidativas que usa, teve o que merecia. Fala com apavorante calma. Efusivo, o informante diz que a mãe da rapariga aplicou o “castigo” correcto ao mandar a filha para a incerteza das ruas. Não suportava tanta vergonha.
“Essa é que é mãe, deu um grande exemplo”. O comentário veio de alguém que até então se mantivera calado. Não percebi se o cidadão com ar polido estava a falar a sério ou a ironizar. Entretanto, uma voz sensata arrefeceu o entusiasmo dos jovens de bata branca e remeteu os moralistas de plantão ao silêncio absoluto. Quis saber se não sentiam vergonha de divulgar vídeos com conteúdo criminoso. Pela riqueza de pormenores, nomes citados e outros dados eles mostraram que conhecem os envolvidos. Disseram que o autor do convite para a malfadada festa admitiu lá no bairro que tinha agido sob efeito de drogas.
Quando desceram na paragem defronte ao Instituto Médio os estudantes já não estavam interessados em comentar o vídeo. Mas também não pareciam arrependidos por terem exposto com tamanha desfaçatez mais uma vítima da impunidade. Provavelmente não terão compreendido coisa alguma. Eles são inocentes, não sabem o que fazem. Exactamente como no texto bíblico. Limitam-se a reproduzir comportamentos típicos de falsamente moralizadoras sociedades machistas. Toleram predadores sexuais e criminalizam vítimas. Valem-se de valores sócio-culturais para justificar práticas criminosas. E fazem-se munir de pretensos fundamentos religiosos para amenizar actos gravíssimos.
Recorrer a meios escusos para satisfazer instintos sexuais insanos é das piores formas de violência infligidas a um ser humano. É humilhante e invasivo. Deixa traumas físicos e psicológicos. É criminoso. Filmar o acto repulsivo, partilhá-lo na internet e ser aplaudido pela virilidade é altamente inqualificável! Os crimes sexuais devem ser enquadrados com rigor e julgados nos termos da lei. Entre nós, salvo quando mediatizados, principalmente se afectarem crianças, muitos casos são postergados. Inumeráveis denúncias morrem arquivadas em esquadras policiais onde quem ousa quebrar o silêncio fica sujeita a tratamento depreciativo, além de mil rótulos. Impõe-se a necessidade da constituição de equipas multidisciplinares para o devido tratamento a agressões sexuais.
Por sua vez, a Media também contribui para reproduzir informações susceptíveis de criar opiniões desfavoráveis sobre as vítimas, alicerçadas no velhinho pretexto da conduta social duvidosa. Deve sempre ficar claro quem é o agressor e quem é a vítima, descartando o sensacionalismo que banaliza, vende jornais e garante audiências.


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