Opinião

A diplomacia africana

Victor Carvalho

Num discurso recentemente proferido em Lisboa, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, disse ser um grande defensor da ideia de que seja a liderança africana a resolver os problemas que afectam o continente.


Esta declaração, que segundo o seu autor se baseia na experiência adquirida nos meandros das Nações Unidas, é o reconhecimento da importância que a diplomacia africana tem tido na busca de soluções negociadas de consenso para fazer frente aos conflitos e aos problemas que preocupam os diferentes países do continente e no contributo que tem dado, a nível das diferentes organizações internacionais, para a estabilidade e a paz mundial.
Na verdade, este mais que justo reconhecimento por parte do Secretário-Geral das Nações Unidas da importância da liderança e da diplomacia africana, tem por base a realidade dos factos daquilo que se tem vindo passado em diferentes países. Mesmo Angola, durante décadas vergada a uma intensa e violenta guerra civil, pode servir de bom exemplo para ilustrar a justeza da declaração de António Guterres.
Depois da presença entre nós de sucessivos enviados especiais dos então secretários-gerais da organização, foi apenas sob mediação negocial nacional que se conseguiu assinar um acordo de paz, inclusivo, que permitiu pacificar o país e encarar os desafios do futuro com o optimismo próprio de quem conseguiu resolver de forma positiva o seu principal problema: a guerra. Na última cimeira África-Europa, que decorreu recentemente na Costa do Marfim, ficou clara a necessidade dos países africanos se unirem no sentido de melhor poderem resolver os seus problemas, sejam os de carácter económico, social ou político.
Uma África unida é meio caminho andado para a resolução dos seus principais problemas, pois garante a solidariedade institucional e a união entre os povos capaz de encontrar soluções onde, aparentemente, outros apenas se vislumbram problemas. A união dos países africanos, seja em redor da sua organização continental ou regional, através de acordos bilaterais ou multilaterais, é a única forma de se criarem mecanismos de interesse comum capazes de responderem positivamente aos desafios do desenvolvimento.
A diplomacia africana, por várias vezes, deu provas de estar à altura de desempenhar o seu papel na busca de soluções negociadas para diferentes conflitos  sem a necessidade de recurso a intermediários  de outras latitudes, que quase sempre olham para os nossos problemas com a visão toldada pelos interesses geoestratégicos que representam.
A própria União Africana, com quem as Nações Unidas reconhecem manter uma relação de enorme cooperação, tem que ser “municiada” pelos Estados membros com os poderes institucionais e políticos suficientemente fortes para que seja, de facto, uma interlocutora cada vez mais representativa e interventiva naquilo que é a defesa dos verdadeiros interesses do continente.
Felizmente a diplomacia africana, por numerosas vezes, deu provas de estar à altura dos desafios que lhe são lançados por tempos em que, cada vez mais, o diálogo se começa a impor como forma para a resolução de conflitos e como instrumento inestimável de aproximação entre os povos.
Estes são tempos, também, em que à diplomacia são atribuídas outras importantes tarefas que se prendem com a captação de investimento estrangeiro e com a promoção da imagem dos respectivos países no areópago internacional.
O continente africano, face aos desafios do futuro, terá que estar cada vez mais empenhado em promover o reforço da sua diplomacia, para que se possa mostrar ao mundo como um parceiro capaz de resolver positivamente os seus próprios problemas.

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