Opinião

A fábrica de quissângua de Francisco Kevelela Jr.

Filomeno Manaças |*

Francisco Kussundila Kevelela Jr. é um jovem de tenra idade. Apesar dos seus doze aninhos já sonha grande.
Filho de pais camponeses, que têm no trabalho da terra a única forma de sustento, é, na escola onde frequenta a quarta classe, um aluno atento e sempre preocupado em tirar dúvidas. Embora um pouco recatado, é um rapaz empenhado em querer saber o porquê das coisas.

Essa curiosidade decorre do convívio permanente com os pais e de os acompanhar, vez e outra, no trabalho de preparar o pedaço de terra que possuem, de plantar, semear, de seguir o desenvolvimento das plantas e seus frutos e depois participar na colheita para a comercialização dos produtos.
Presta atenção quando os pais não têm recursos para pagar um técnico para aconselhar no combate aos bichos ou fungos que atacam as plantas ou o veterinário para tratar dos poucos animais que possuem. Então inventam aí algumas soluções a ver se eles resistem. Para as plantas, às vezes é a água de sabão que é utilizada para as borrifar. Outras vezes seguem os conselhos dos amigos e misturam num caldeirão folhas de várias árvores que, depois de fervidas, são atiradas às bananeiras e aos mamoeiros. Para as galinhas e cabritos é o pó de uma ou mais cápsulas de amoxicilina, ou outro antibiótico, que misturam na água para saciar os animais, ou chá de liamba, cultivada em muito pequena quantidade, porque não querem ser confundidos, um dia, com produtores e fornecedores para o mercado de estupefacientes e de estarem a fomentar o consumo de drogas. Para curar as feridas dos animais, a receita habitual é o azeite de dendém misturado com a cinza do fogareiro, que forma, assim, uma pasta à qual acrescentam ou não um antibiótico.
Estas soluções umas vezes resultam, outras vezes não.
Quando um animal morre é quase como se fosse a perda de um membro da família. A tristeza invade o semblante de todos. É o pai, com aquele seu rosto tornado rude pelos anos de trabalho ao sol e à chuva, que trata de reanimar os espíritos para a retoma da vida normal, depois de, também ele, gerir a mágoa, que não pode durar muito tempo, pois sabe que, como chefe de família, não pode deixar que ela tome muito espaço, que ela dure muito tempo.
Por isso, quando pensa nisso, e porque já aprendeu algumas coisas na escola sobre as diferentes profissões, Kevelela Jr. sonha um dia vir a ser um bom técnico para resolver esses e outros problemas.
O jovem está particularmente fascinado com a química e com a agronomia. Ele acha que (e está certo) quando for adulto e se conseguir conciliar essas duas áreas do saber, vai poder dar um outro rumo à exploração agrícola dos pais e à própria vida dos seus progenitores.
Francisco Kevelela Jr. veio a Luanda passar férias com uma das tias. Estranha que tudo aqui tenha de ser comprado. E ainda por cima a quissângua, o chá de caxinde, o bombó frito, a banana pão assada, a batata doce assada, a ginguba assada, não se igualam ao que a sua mãe faz e que prepara com todo o esmero para o pequeno almoço antes de ir à escola. Não têm aquele amor.
A mãe, dona Esperança, não admite que se deixe as moscas poisarem na comida. Desde que houve aquele surto de febre amarela e que suspeitou que a malária que o marido, o Sr. Francisco Kevelela, contraiu, fosse a tal, ela redobrou as atenções. Embora se divirta com outros jovens e como outros jovens da sua idade, gosta de jogar à bola e de uma ou outra música, há momentos em que se nota em Kevelela Jr. estar mais circunspecto, pensativo.
No Cazenga, onde se hospedaram em casa da tia que vive em Luanda, já teve oportunidade, nas andanças de acompanhar esta última para comprar bebida para revender, de conhecer as duas grandes fábricas de cerveja aí instaladas.
Ficou fascinado com as explicações que lhe deram sobre como elas funcionam, sobre a higiene que é preciso ter.
Franccisco Kevelela Jr. já sonha em ser um aluno com notas excelentes e, porque a China está na moda, quer formar-se em engenharia química e agronomia em terras de Deng Xiao Ping. Mas quer também “beber” da experiência técnica nos Estados Unidos da América ou na Alemanha.
Falaram-lhe da importância do ramo alimentar e das bebidas na economia, da conservação dos alimentos, das técnicas hoje usadas, do processo de desumidificação de produtos, da manutenção das percentagens correctas para que os mesmos não percam as suas características e o consumidor continue a identificar-se com os mesmos e a preferi-los aos demais, dos prazos de consumo, da sua reciclagem como ração animal, enfim.
Falaram-lhe de tanta coisa que, olhando para aqueles grandes cilindros de aço inoxidável (silos) de armazenamento e processamento de cerveja, Kevelela Jr. já pensa, quando for grande, instalar uma fábrica de quissângua com aquele mesmo sabor com que a mãe faz. Já pensa numa grande fábrica de bombó frito e desumidificado, mas bem crocante e já pensa numa fábrica de ginguba torrada e de banana e bombó assado de forma uniforme, para fornecer no mesmo dia a milhares de clientes. E porque o chá de caxinde não pode ficar de fora, está preocupado com uma fábrica que preserve em 99 por cento o seu sabor e o seu aroma.
E assim pensa em inundar o mercado nacional e dar emprego a muita gente.
Eu cá por mim estou nas asas do sonho de Kevelela Jr.
Os ingleses institucionalizaram o chá das 17 horas. Outros povos conferiram estatuto de cidadania ao café.
Sonhar não é proibido. Sonhar acordado muito menos. Os escritores chamam a isso ficcionar. Eu voei nas asas do sonho de Kevelela Jr. Quem sabe em 2030 (ou antes) tenhamos essas fábricas...

* Director Nacional de Publicidade. A sua opinião não engaja o Ministério da Comunicação Social

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