Opinião

A hipocrisia e os bons ofícios de David Mendes

Filomeno Manaças *

Na recta final da campanha eleitoral para o pleito de 23 de Agosto próximo, a mentira descarada entrou com força nos comícios e nos tempos de antena, na rádio e na televisão, de alguns candidatos e formações políticas da oposição.

A CASA-CE e a UNITA, em particular, apostaram em fazer tábua rasa de tudo quanto já foi feito para o desenvolvimento do país. Mas o MPLA e o seu candidato não precisam de fazer muitos esforços para desmentir as muitas inverdades que são propaladas. Têm, até, a tarefa facilitada.
Basta revisitar algumas das passagens da entrevista que o advogado David Mendes, que faz parte da lista de candidatos à deputado pela UNITA nestas eleições, concedeu em Março à TV Zimbo.
Contrariamente ao que a maior parte dos partidos da oposição apregoa e o vem fazendo, muito antes mesmo do início da campanha eleitoral, David Mendes afirma categórico que “não apoia o discurso da fraude”. E apontou qual o caminho que as formações políticas devem seguir, que é a preparação dos seus quadros, para, conforme estabelece a lei, fiscalizarem as eleições quer na mesa e nas assembleias de voto, quer no centro de escrutínio.
De certa forma surpreendente, porque não alinhado totalmente no coro dos seus pares, é ouvir David Mendes afirmar que “não podemos só falar mal de Angola. Há coisas em que nós evoluímos. Fala-se muito da existência de uma oposição fraca, não é verdade. Angola tem uma oposição forte”. E é caso para perguntar: e então, com tantas perseguições de que o Executivo do MPLA é acusado, a oposição consegue organizar-se e os seus dirigentes até falam para a comunicação social?
Continuemos entretanto a acompanhar outras passagens do advogado/reforço da UNITA.
Sobre a figura do Presidente José Eduardo dos Santos, David Mendes realçou: “Não há (em Angola) políticas de Estado de aniquilar fisicamente indivíduos da oposição. Isso é uma virtude”. Eu aponto vários defeitos ao Presidente José Eduardo dos Santos, mas essa é uma virtude que eu aponto nele - sublinhou. “Mesmo naquela altura que havia pena de morte, que eu saiba, ele nunca sancionou nenhuma pena de morte. É uma virtude que temos de ter presente”, considerou. Questionado pelo entrevistador se não tinha receio de ser rotulado de bajulador, o advogado afirmou, com firmeza: “Seríamos hipócritas se disséssemos que tudo isto está mal. É hipocrisia. Não estou de acordo, mas também não podemos deixar de apontar virtudes”. Abra-se aqui um parêntesis para dizer que, infelizmente, a hipocrisia tomou mesmo conta de alguma oposição, com ênfase para a UNITA e a CASA-CE.
 São também de David Mendes as seguintes palavras - “Outra virtude! Angola, pelo menos aqui na região Austral, tirando a África do Sul (eu viajo por esses países), tem um desenvolvimento que esses todos países não têm”.
Por muito que falemos de inconvenientes e outras coisas mais, disse ao jornalista, “você tem dois exemplos muito importantes de um país que quer crescer: tens uma centralidade como a do Sequele, tens uma centralidade como a do Kilamba, e tens outras a crescer a nível do país”. É uma virtude, sublinhou o advogado David, para entretanto discordar da construção do edifício do Parlamento, porque considera que devia ser construído um hospital pediátrico, obra que entretanto vai ser erguida em ano e meio no Camama, cuja cerimónia de colocação da primeira pedra teve lugar esta semana.
O advogado afirmou ainda que “não podemos ser uma oposição cega. A função da oposição não é só criticar. É também mostrar caminhos, é também ver a virtude nos outros”. Como outro exemplo de virtude apontou o Zango. “O Zango hoje evoluiu demais. Pela dimensão que tem hoje, quem iria imaginar?”, interrogou-se.
Com o Zango, disse, resolveu-se um problema sério de habitação. E acrescentou: não é possível você estar perante esta realidade objectiva e dizer que não existe.
Mas a verdade é que para a oposição, em particular a UNITA e a CASA-CE, esse grande investimento que é o Zango não existe.
Quando o Executivo começou a retirar as pessoas das barrocas do Miramar, na Boavista, para as colocar no Zango e, assim, evitar as tragédias que ocorriam no tempo das chuvas, David Mendes fazia campanha contra esse projecto.
Hoje, as observações do advogado e candidato à deputado pela UNITA às eleições de Agosto próximo, feitas com olhos de ver e ditas com alguma lucidez política, são suficientes para desmentir muito do que Isaías Samakuva diz nos seus comícios e outras tantas que o partido fundado por Jonas Savimbi passa nos tempos de antena na rádio e na televisão, numa campanha em que a CASA-CE faz parte da orquestra. Lá diz o velho brocardo em latim: “veritas evidens non probanda” (a verdade evidente não carece de ser provada).

* Director Nacional de Publicidade, a sua opinião não engaja o Ministério da Comunicação Social  
 

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