Opinião

A história do transporte de uma parte da máquina policopiadora

Filipe Zau | *

O marítimo  António Rodrigues da Costa nasceu a 20 de Setembro de 1918, em Quinzau, ex-concelho do Ambrizete e antigo Distrito de Santo António do Zaire. O seu pai mandou-o para Luanda, para aprender um ofício e, começou a trabalhar, como alfaiate, numa empresa. Associado a outros amigos, ainda lhe foi possível trabalhar por conta própria, na profissão de alfaiate.

Aos 25 anos de idade, António Rodrigues da Costa, vendo outros amigos a embarcarem em navios da marinha mercante portuguesa, resolveu também enveredar pela vida marítima e conta-nos como levou uma parte da máquina policopiadora, que, no tempo colonial, serviu para emitir panfletos, no contexto da luta clandestina: “(...) Eu morava em Lisboa e a minha falecida mulher, a Ester, disse-me  que tinha recebido uma encomenda e uma pasta para levar para Luanda e ainda que, no dia seguinte, às oito horas da manhã, essa pessoa iria trazer o resto. Ela não conhecia a pessoa, que tinha deixado a encomenda, apesar da mesma ter citado o meu nome. Fiquei sem saber quem era essa pessoa e, a minha esposa, avisou-me logo para ter cuidado com aquelas coisas. Fui ver o que tinha a pasta e vi lá jornais do ‘Avante’ e panfletos. Disse-lhe então que eram jornais da Ilha de Luanda, mas ela sabia o que era o ‘Avante’ e disse-me: ‘Olha que, o ‘Avante’, há-de ir atrás de ti. Vê lá os teus filhos...’. Quem tinha deixado os panfletos tinha sido um indivíduo do Barreiro, ligado ao Partido Comunista Português, que antes tinha falado comigo.
Sobre a máquina, eu também já tinha falado com um amigo do Lúcio Lara, que agora não me recordo do nome. À noite, apareceu, então, o Eng. Humberto Machado, que me disse: ‘Olha. Temos aí uma encomenda grátis, para você’.
Perguntei-lhe, então, o que continha a encomenda e ele respondeu-me: ‘Cara de chimpanzé’. Voltei depois a questionar-lhe o que é que ele (chimpanzé), queria.
E o Humberto disse-me: ‘Quer figuras’. Entendi logo que era a máquina. Naquela mesma noite fui a bordo, entrei na lavandaria e meti a máquina num saco de roupa suja. Ora, toda a roupa é contada. Aquela que iria ser guardada, ficava à parte. A que teria de ser lavada, ficava, ali mesmo, na lavandaria. Então, meti o saco de roupa suja com a policopiadora virada para cima na máquina de lavar roupa. Eu sabia a que horas é que se punham as máquinas de lavar roupa a trabalhar e, então, tirava cá para fora o saco de roupa onde estava a policopiadora. E assim seguiu viagem até S. Tomé, no navio ‘Angola’. Quando cheguei a S. Tomé, chegou  um  indivíduo com bananas verdes num saco de serapilheira e com uma senha igual à minha. Disse-me, que queria falar comigo, mostrou-me um papel rasgado ao meio, que coincidia com a metade que eu já trazia de Lisboa e levou a máquina para terra, como se fosse bananas que ele não tinha conseguido vender a bordo. Disse-me para depois eu falar com a Alda do Espírito Santo. Naquela altura, não consegui falar com ela, só depois, quando o navio regressou de Luanda (...)”.  Este  depoimento prestado por António Rodrigues da Costa, em 28 de Setembro de 2004, foi feito depois de um funje em casa de Maria Manuela Bicuta Bartolomeu, viúva do marítimo António Paulo e na presença de Jeremias Miguel Ganda, Pedro Cino, António Francisco Sérgio e Mário Van-Dúnem, todos antigos marítimos.
Nesse dia, Mário Van-Dúnem também informou que, Manuel Soares Gomes tinha também levado, no mesmo navio, uma máquina policopiadora (ou apenas uma parte), até ao Lobito, tendo feito a entrega da mesma a André Franco de Sousa. Ainda segundo o esclarecimento de Mário Van-Dúnem, naquela altura, a vigilância da PIDE, já era muito apertada no Porto de Luanda, o que ainda não acontecia no Porto do Lobito. Porém, quando a PIDE descobriu a máquina policopiadora, alguém, que foi preso, terá confessado à PIDE, que tinham sido os marítimos que a trouxeram de Portugal para Angola. Daí que, em Dezembro de 1958, tanto António Rodrigues da Costa, como Manuel Soares Gomes, mais pela desconfiança do que pela certeza, viessem a ser, imediatamente, presos pela PIDE, quando chegaram a Lisboa.
Sempre que António Rodrigues da Costa e Manuel Soares Gomes chegassem a Luanda, estavam sempre acompanhados de Ilídio Machado e de Higino Aires. Mais tarde, também o marítimo Abílio Rodrigues da Costa, irmão de António Rodrigues da Costa, acabou por ser preso pela PIDE, em Luanda, por ter sido apanhado a conversar com Ilídio Machado, quando este embarcava para Lisboa, antes de ser preso e extraditado para o Tarrafal, em Cabo Verde.
Segundo Edmundo Rocha, Ilídio Machado, André Franco de Sousa e Higino Aires de Almeida eram fundadores do Movimento pela Independência de Angola – MIA. Também Amadeu Amorim, membro dos Ngola Ritmos, ligado ao processo dos 50 e desterrado para o Tarrafal, referiu que ainda se encontra no Bairro Operário, a casa onde a máquina policopiadora imprimia os panfletos.

 * Ph. D em Ciências da Educação
 e Mestre em Relações Interculturais

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