Opinião

A importância do vizinho

Eduardo Beny

Quando a casa do vizinho está a arder, põe a tua barba de molho, diz a sabedoria popular. Uma das consequências, surpreendente e potencialmente perigosa, da nova era das tecnologias da comunicação é de se ter esbatido esta noção de “vizinhança”: comunicamos mais facilmente com um “amigo”, do outro lado do mundo, do que com o vizinho, aqui muito por perto, por vezes do outro lado da rua, ou do patamar. Acontece o mesmo com as notícias, nomeadamente, em África. Focalizados no “mundo global” minimizamos o que acontece ao lado, mesmo quando estamos a assistir o braço-de-ferro entre “potências globais”.

Nem os “irmãos” dos PALOPs escapam. Exemplo recente: o que aconteceu em Moçambique eleições autárquicas, legislativas, em São-Tomé e Príncipe, preparação das eleições gerais, na Guine Bissau, parece que pouco ou nada têm a dizer aos angolanos.
A semana antepassada foi de boas notícias: “Moçambique e Angola” são, atrás da Nigéria, os dois países da África subsariana que mais investimento em activos fixos vão receber, até 2025, num total de 12,8 mil milhões de dólares, segundo a consultora Global Data, para financiamento de projectos de petróleo e gás. Avança aquela consultora que “a produção total de crude dos projectos anunciados e planeados, na África subsariana deve chegar aos 2 milhões de barris diários, em 2025 e a produção de gás deve atingir os 8,1 mil milhões de pés cúbicos, por dia. Por outro lado, a outra boa notícia é o facto de, pela segunda vez, ter sido escoado, através do porto do Lobito, para mercados europeus, minérios provenientes de países vizinhos. Tudo isso, passou despercebido, em termos de informação importante, para os angolanos, inclusive de baterem nas rádios e nas televisões, apesar de, nessa altura, termos sido absorvidos, pelos acontecimentos que, a nível interno, conduziram algumas figuras públicas para a prisão.
A “arma global” é agora a comunicação e obviamente os seus detentores “orientam” a atenção em função dos seus interesses – para não serem acusados de “complotismo”, vamos dizer que a sua percepção do que é “importante” é sua, não coincide obrigatoriamente com o que importa aos africanos/angolanos, enfim, ao cidadão comum.
Claro que há que se ter em conta esta «mundovisão», mas não deveria levar a “esquecer” o que acontece, aqui ao lado. Exemplo: qual é o país com o qual Angola tem a maior fronteira terrestre? A RDC, obviamente. Acham que o que acontece nesta “casa vizinha” não tem influência sobre o presente e o futuro de Angola? Não tem consequências para o dia-a-dia dos luandenses? Não é por acaso que surgiu o mercado “dos congolenses”, que há tantos “angolanos de nacionalidade duvidosa” e não, apenas, nas Lundas e no garimpo dos diamantes!
Por desconhecer a realidade física e social dos “vizinhos” magrebinos e outros muitos africanos do Norte “engoliram” a falácia das “primaverasárabes” e do “dominó”, de Marrocos ao Egipto. “Histórias” diferentes, crises e “soluções”variáveis de um país a outro, Líbia, Egipto, Tunísia, Argélia, Marrocos, Mauritânia. E, no entanto, os magrebinos viajam mais de um pais a outro do que a maioria dos africanos ao sul do Sahara.
No horizonte da maioria dos angolanos, parece vislumbrar-se que a RDC,STP e Bissau são “terras incógnitas”, já que vão mais facilmente fazer compras a Abu Dhabi ou Shangai, turismo em países ocidentais ou exóticos, negócios em Portugal ou Espanha, estudar nos EUA…
E, no entanto, as “fronteiras”, entre vizinhos, são porosas: basta ver os camiões que as atravessam, os fluxos de “refugiados” provocados pelos conflitos, os comerciantes e traficantes que se instalam entre nós.
Em suma, importa reconfigurar uma nova geopolítica africana que passa, em primeiro lugar, por uma nova forma de convivência, entre vizinhos. E vizinho, como sói dizer-se, não se escolhe!

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