Opinião

A Kizomba nas marés e maresias

Manuel Rui

Por tudo que era campo para jogar era só ver os caçulinhas da bola gingando nas fintas de reinventar o futebol. E por tudo que era terraços de prédios, já com os degraus das escadas desdentados pelo rolar das botijas de gaz que os elevadores já tinham repousado de cansaço, havia grupos de crianças organizadas e dançando em desafio à exuberância da beleza do ritmo e compasso e, nos estádios, em eventos festivos, centenas de crianças desenhavam nas bancadas quadros humanos para deslumbrar o céu.

Hoje, os que viveram esses dias, também de luta e de luto, podem incluir estes fenómenos naquilo que se designou por Resistência Popular Generalizada. Na televisão, a branco e preto e de curto tempo de programação, os grupos de dança eram saudados com muita alegria, cada grupo tinha um nome e um orientador ou orientadora. Onde andarão esses grandes dançarinos, hoje já são adultos mas que bom seria a televisão voltar a transmitir esses pedaços da nossa história escrito por crianças? Sei que temos desprezado a memória do passado recente mas seria interessante convocar esse pessoal da arte do futebol ou da dança, levá-los às escolas e projectar imagens dos seus feitos gloriosos.
Também, nesse tempo, havia recolher obrigatório, a partir de determinada hora não se podia andar nas ruas. Aí, nas festas, cada família levava contribuição, mulher uma comida e homem uma garrafa ou uma grade (que naquele tempo era divisa com cotação na bolsa) e a farra com semba, kizomba, rumba, samba ou salsa, ia até de manhã até um caldo a destampar o aroma forte do dendém, caombo esmagado, limão espremido e vai daí que era só um intervalo para depois retomar as “confrontações” como alguns chamavam às farras. Claro que se ouvia e dançavam os nossos já maiores da Kizomba.
Sempre, aqui em Luanda, houve espaços de dançar e aí aprender e como hábito e necessidade, os pais levavam os filhos que dormiam, acordavam e comiam nas farras, cedo a meninada ouvia música, via dançar, os mais pequenos as mães dançavam com eles no colo e os que já andavam aprendiam mexendo e remexendo aqui e além uma queda mas não era nada.
Estou a enfatizar a Kizomba porque me lembro que coincidentemente com os grupos de dança, apareceram kizombas que andavam escondidas e outras novas que a tornaram um dos maiores patrimónios culturais de Angola. Um património que nunca mais parou.
Mas nunca me havia passado pela cabeça que, no malecon (passeio) da nova marginal com verde da relva e azul do mar, à beirinha da baía, um jovem dá aulas de Kizomba na hora do sol cair para se mostrarem as estrelas. Os aprendizes carregam nas viaturas as colunas de som. O mestre explica. Os passes, as passadas. Quando fala em umbigada o pessoal ri, sem saber que no tempo do colono a umbigada era proibida…por ser contra a moral. A sensualidade da Kizomba em que a mão esquerda do homem é fundamental para orientar a senhora estrangeira aprendiz e ela fala alegremente “a branca caiu na Kizomba.” Falei com o jovem mestre e ele referiu-me passes e passadas, corridinho, tango, etc. Eu acrescentei que não se podem trocar as coisas para não virar a história ao contrário. Os ritmos dos escravos que também serviam de defesa como os da nossa resistência popular generalizada, foram daqui para o outro lado do mar e por lá se transformaram. Mesmo o tango tem origem nos bairros pobres de negros em Buenos Aires e Montevideu. Do samba e da salsa já sabemos.
Andam senhoras europeias e das américas a aprender Kizomba. E passam de boca em boca. Uma que aprendeu bem, acabou a missão do marido foi embora e montou uma escola de Kizomba no país dela. Dizem que está a fazer uma boa nota. Falam ainda, ali na marginal, que outro estrangeiro regressou à sua terra e escreveu um livro com pautas musicais, invocando-se como o criador de um novo ritmo: a kizomba.
Tem vezes em que se fala na necessidade de preservar a tradição. É um paradoxo pois tem coisas que morrem com o tempo. Outras vezes ficam em ruínas. Outras acabam por serem contra a humanidade, caso da incisão clitorial a que em algumas partes do mundo ainda se praticam contra a mulher. A tradição preserva-se por sua força interior. Agora tem coisas, estas da dança como a Kizomba em que se pode até inventariar o léxico, em vez de dançarina ou dançarino, bailador ou bailadora, em vez de farra kizombada, em vez de dançar bailar pois nem nunca a lua pensou que no seu luar a kizomba deve candidatar-se a património da humanidade, basta para tanto começar a inventariar tudo com todos os meios da tecnologia disponíveis.
Mas é verdade que estou a olhar a antiga marginal com as arcadas para diminuir o calor e onde, no antigamente, se enchia de gente para tomar cerveja com tremoços, dobradinha, jinguba e camarões. E, como nós não a quisemos ocupar, à noite é um fantasma enquanto que na nova marginal se podem ver as passadas da kizomba nas marés e maresias que os búzios devolvem para a Kianda ouvir.

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