Opinião

A lambretta do meu pai

Adriano Mixinge | *

Ela tinha a cor cinzenta do período colonial e não foi o único “objecto curioso” que esteve nos anos 60 do século passado associado  à história da nossa familia.  Originária da cidade de Milão dos anos 40, a motorizada chegou à nossa casa, em Luanda, vinte anos depois, como todo um acontecimento.

Sempre que, para sair, o meu pai pusesse as duas mãos no volante da lambretta, eu pensava que estava em cima do lombo de um cavalo alado: víamos-lhe pôr-se à estrada e, depois, desaparecia entre uma nuvem de areia vermelha. Não me admirava que todos quisessem ir com ele: agarrar-lhe a cintura e sentar-se no banco traseiro como se a garupa daquele equino de ferro e motor, próprio das mitologias da minha meninice, fosse o melhor lugar do mundo. Quando lá estivesses, a experiência do vento a bater-te na cara, quando a moto andava pelas estradas de asfalto e pelos caminhos de terra batida, era inspiradora.
Tal como o meu pai e a minha mãe, na nossa casa, a lambretta e a máquina de coser Oliva pareciam estar casadas. No quintal, debaixo da frondosa mangueira, sentindo o cheiro da bananeira ao lado, podiam as pessoas repousar e, às vezes, alguns dos “objectos curiosos”: sombra irrepetível de fraternidade.  Era prazeroso estar deitado na esteira e ver a minha mãe aparecer com a comida que trazia do serviço. Ela geria uma padaria, ocasionalmente trabalhava no catering do aeroporto que fica mesmo ao lado. Era frequente comermos o mesmo queijo, a mesma marmelada e as mesmas bolachas que comiam os que viajavam: é como se, de repente, com os pés e o corpo no chão, sentindo as estrias da esteira estivéssemos num avião, sem precisar de luxo nenhum. 
Nos seus tempos livres ou durante os fins de semana, Celeste, minha mãe, sentava-se à máquina Oliva e cosia. Quando o meu pai estivesse em casa era o giradisco e os seus cadernos de matemática, escritos com esferográfica, tão bem organizados e sem rescunhos, que nos impressionavam: os amigos lhe chamavam de Cardeal e ele era o nosso único génio. Já mais tarde, noutra casa e num outro tempo, eram os vinte volumes da enciclopédia britânica que lhe absorveriam: paradoxalmente, na estante de livros estavam mais filósofos franceses do que ingleses, de Diderot a Henri Poincaré.
Os “objectos curiosos” da nossa casa ajudavam a unir mais a familia: frágua pura. Em tempos de penúria e de limitações, as famílias eram unidas. Não erámos livres, vivíamos no musseque, mas, chegavam-nos tantas migalhas da modernidade que, por instantes, pensávamos que nada humano nos era alheio. Não era certo, como isso importava pouco, nos contentávamos com objectos: a geleira essencial para guardar os alimentos, o isqueiro com que o meu pai acendia os seus cigarros AC e, às vezes, as velas e o giradisco para pôr música e festa às nossas vidas eram alguns deles.
Havia outros objectos: a luz de um candeeiro a petróleo daqueles tempos era mais cintilante. O tanque de cimento para lavar a roupa servia como um lugar em que, ao fim da tarde, a minha mãe dava-nos um desses banhos em que quase nos arrancavam a pele. O fogareiro era o objecto duro, trono em que as panelas se sentavam para sairem de lá fumegantes e com aromas convidativos. Já o pilão e a peneira eram como irmãos: o bombó ou o milho que saíam de um, depois, iam para o outro para separá-los das impurezas, ritual prévio ao armazenamento da fuba e, de certeza, uma boa funjada, das que eram preparadas entre muitas mãos e anunciavam reunião aconchegante.
Não precisávamos de ser ultramodernos. A lambretta era o objecto novo: fez com que, desde então, nunca tenha visto o meu pai a andar a pé, algo que eu recordaria, em Paris, quando visse uma passar pelas ruas. Em Luanda, ele ia de moto de casa ao serviço e do serviço a casa e visitava os familiares e amigos que viviam noutros bairros da cidade. Com a sua máquina Oliva, a minha mãe começou a coser chambres, camisolas e bermudas, assim como a bordar toalhas, lençóis e, no cacimbo, pullovers para nós e, depois, para os nossos primos e, depois, para os vizinhos como se fóssemos todos da mesma familia. 
A máquina de coser Oliva, o candeeiro a petróleo, o tanque de cimento para lavar a roupa, o fogão, a selha e o pequeno banco de madeira, a esteira, a peneira, a geleira, o fogareiro, o isqueiro, o pilão e a lambretta do meu pai foram os objectos, singulares e utéis, que nos ajudaram a manter os pés no chão, a utilizar com prudência os modernismos que a época e as circunstâncias nos tinham posto à mão.
 É melhor ter os pés no chão do que a cabeça no ar. Cada manhã, os diferentes objectos permitiam-nos recordar a essência da vida. Eles ajudavam-nos a viver entre a tradição, o colonialismo, a assimilação e a modernidade: num passe mágico faziam-nos atravessar épocas, normas e culturas nos gestos que enlaçavam um objecto, um afazer, um desejo, uma história ou um afecto com o outro unindo as nossas famílias, para sempre. 

 * Historiador e crítico de Arte

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