Opinião

A maioria de João Lourenço

João Melo |

Muitos militantes, quadros e dirigentes do MPLA empenharam-se a fundo nas últimas eleições para que o partido no poder e o seu novo candidato presidencial, João Lourenço, as vencessem com maioria qualificada.

Desde o início, sabiam, com base em pesquisas internas sérias, diferentes das contas imaginárias da oposição e dos seus simpatizantes, que se tratava de um objectivo difícil, mas alcançável. A campanha não foi fácil, pois, além das outras formações concorrentes, o MPLA teve de enfrentar também certos episódios, equívocos e factos “internos”, que tornaram ainda mais difícil atingir esse resultado. Mas, embora à justa, o mesmo foi alcançado.
Alguns eleitores, aparentemente, continuam em estado de choque com o resultado das últimas eleições. A maior parte deles é constituída por membros e simpatizantes dos partidos oposicionistas, pelo que a sua reacção é perfeitamente compreensível, sobretudo se tivermos em conta que as lideranças desses partidos, demagogicamente, fizeram crer à sua militância que poderiam ganhar as eleições. Os principais líderes da oposição sabiam perfeitamente que a mesma iria perder, pois a respectiva taxa de rejeição manteve-se, ao longo de toda a campanha, um pouco acima dos 60%. Ora, em parte alguma do mundo um partido com uma taxa de rejeição tão elevada pode ganhar eleições.
Além dos eleitores “cativos” da oposição, há outra categoria de eleitores, cuja comoção por causa da maioria qualificada alcançada pelo MPLA e o seu candidato, aparentemente, é ainda maior. Trata-se de cidadãos oriundos do campo sócio-cultural - para não recordar, mesmo, político – do partido no poder, mas que decidiram votar na oposição, para, segundo eles, forçarem um maior equilíbrio, que obrigasse este último a compor com as forças oposicionistas, condição supostamente necessária para que o MPLA fizesse as mudanças e correcções que a sociedade, quase unanimemente, reclama.
Trata-se, como é óbvio, de uma postura e uma leitura legítimas. Mas, também obviamente, aqueles que, desde o início, se empenharam na conquista da maioria qualificada por parte do MPLA e de João Lourenço discordam dessa “engenharia”, tendo alertado, durante a campanha, para o risco de tais “experimentalismos” políticos. O resultado do pleito confirma que a maioria do eleitorado preferiu esta última mensagem, em detrimento da tese defendida pelos “teóricos do equilíbrio” a que acabei de aludir.
Pela parte que me cabe, avanço dois argumentos para recusar, no quadro actual, a tese da necessidade de “equilíbrio” entre o MPLA e a oposição. O primeiro é que, ao contrário do que pensam os que acreditam em clichés e em ideias feitas, as actuais lideranças da oposição não estão interessadas, na realidade, em mudanças verdadeiras. O que as anima é unicamente o desejo de ajustar contas e, bem assim, a lógica do “agora é a nossa vez”, sem esquecer os seus complexos compromissos externos. O segundo é que, se não o MPLA, pelo menos o seu novo candidato presidencial precisava da maioria qualificada, para dispor de suficiente margem de manobra, sobretudo enquanto durar a coabitação entre o presidente da República e o presidente do partido no poder.
Com efeito, para governar sozinho, bastava ao MPLA a maioria absoluta simples (50%+1). Mas, para que o novo presidente possa realizar as mudanças com que se comprometeu perante o eleitorado, precisava de uma maioria incontestável, como a que o eleitorado lhe concedeu. Algumas delas, mais ou menos simbólicas, podem ser feitas imediatamente, o que, em política, tem mais importância do que os leigos acreditam. Outras, compreensivelmente, levarão mais tempo, exigindo de João Lourenço coragem (que ele disse em Benguela, sua província natal, que não lhe faltará), mas também realismo e bom senso.
A última campanha eleitoral demonstrou, uma vez mais, que o MPLA não tem donos e que a força da sua máquina é decisiva. Que ninguém duvide: a imensa maioria da sua militância, dos seus quadros e dos seus dirigentes deu tudo pela maioria qualificada, em nome da bandeira do partido e também da figura de João Lourenço. Aliás, o próprio facto de o MPLA ter apresentado um novo candidato presidencial às eleições contribuiu também para esse resultado, que só surpreendeu os mais distraídos.

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