Opinião

A mulher adúltera e a graça do perdão

Correia Hilário *

“Quem dentre vós não tiver pecado,
 seja o primeiro a atirar-lhe a pedra” (João 8,7)

Que cena maravilhosa é essa da passagem bíblica! No primeiro momento ela parece ser dura para nós: uma mulher apanhada em adultério é apresentada diante de Jesus. Primeiro, vemos a má intenção que tiveram aqueles que a levaram; pois o que eles queriam, na verdade, não era condenar a mulher, mas colocar Jesus em apuros. A lei mandava apedrejar quem fosse pego em flagrante adultério. No entanto, Jesus, o Senhor da vida, prega o perdão, prega a misericórdia. E agora? Ele vai se opor à lei dos judeus, se opor à lei de Moisés? Jesus simplesmente se abaixa e começa a escrever algo no chão; alguns Padres da Igreja dizem que Ele estaria escrevendo os pecados de todos os que estavam naquele lugar dispostos a apedrejar a mulher. Mas, o mais importante é o silêncio que o Senhor provoca, é o silêncio que tem que ser provocado dentro de nós, para que possamos reflectir um pouco mais sobre a nossa vida antes de atirar a pedra ou pensar na vida dos outros.
E o que acontece é justamente isso, porque Jesus levanta e diz: ”Aquele que não tiver pecado que se já o primeiro a atirar uma pedra”. A começar pelos mais velhos, um por um foi se retirando.
Sabem, meus caros leitores, não é nosso dever, não cabe a nós atirarmos pedras em ninguém. O nosso dever é apontar o caminho da vida, da misericórdia e o caminho da salvação. Podemos até ajudar os outros a reflectirem sobre o que têm feito em sua vida, mas, primeiro, pensemos na nossa vida! É fácil ver e falar sobre os defeitos dos outros, mas quando se trata de nós, até o nosso olhar muda, o nosso semblante também vira assemelhando-se com o rosto de alguém que está de óbito, que perdeu um ente querido.
A pior escuridão é aquela em que nós reconhecemos os erros dos outros pecadores, os pecados dos outros e não temos a capacidade de reconhecer os nossos próprios pecados! Jesus é bondoso para com essa mulher, a acolhe no Seu coração; no Seu jeito de profeta, de Messias, Ele provoca uma reflexão no coração dos outros para que ninguém faça mal a ela. Por isso Ele mesmo diz: “Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu, também, não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais” (João 8, 10-11). A atitude de Jesus mostra-nos que devemos condenar o pecado e salvar o pecador. Aqui também poderíamos perguntar: Porque apenas apresentar ao Jesus a mulher e não o homem que a ajudou a pecar? As leis quando favorecem uns e condenando até inocentes, essa lei não vem de Deus. “O amor é a plenitude da lei. E toda a lei que não é a favor da vida, não é a favor da pessoa humana, por mais doce que seja nos lábios e bonita no papel, é injusta” (Correia Hilário in livro Lições da Vida, lição nº33, pág. 10, Uíge, 30 de Junho de 2017).
Deus não tem um contentor onde deposita os nossos pecados. A graça do perdão de Deus, a graça da misericórdia de Deus, perdoa qualquer pecado por mais duro e por maior que ele seja! A mesma graça da misericórdia de Deus nos chama a não nos enveredarmos novamente pelos caminhos do pecado e do erro para que não nos aconteça coisa pior. Numa palavra, não abusemos da misericórdia de Deus. Não existe coisa pior do que voltar à vida velha, ao pecado velho, ao mau hábito; não existe coisa pior do que voltar para a vida passada! Somos tentados e chamados a fazer isso, mas, o importante a cada dia é lavarmos o nosso coração para que a vida nova de Deus esteja em nós. E mesmo que caiamos em pecados ou em erros maiores do que outrora, maior é a misericórdia de Deus!
«Não serás inocente se, por calar-te, permites que se percam irmãos ou irmãs a quem poderias corrigir com um alerta» (Santo Agostinho de Hipona). No mundo há tanta gente perdida, como a mulher adúltera, mas que não têm pessoa que as mostre o caminho certo, o caminho que conduz a Jesus Cristo. «Nada mais frio que um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros» (São João Crisóstomo).
Portanto, não tenhamos medo nem vergonha de ir ao encontro do irmão, do vizinho para lhes mostrarmos o caminho de Deus que quer a nossa conversão, a nossa mudança de vida! O amor de Deus é maior que os nossos pecados.
Que Deus nos lave e nos purifique de todas as nossas faltas!

* Sacerdote da Arquidiocese de Luanda ao serviço da CEAST

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