Opinião

A mulher além de Março

Carlos Calongo

O mês de Março, também conhecido como o mês da mulher, caminha para a recta final. As flores, poesias e todas as demais formas de manifestação e homenagem às mulheres, não passaram de acções de vésperas, no caso, os dias 2 e 8 de Março.

Nesta altura coloca-se a seguinte questão: O que se fala, escreve, ouve-se sobre a mulher além de Março?
A propósito, escreveu  Luísa Rogério, num texto de eleição que não perderá a actualidade tão cedo quanto se pense, que “ ao virar da página voltará tudo ao formato habitual. Quando terminar o período de excepção, as questões ligadas ao universo feminino serão empurradas para a prateleira de baixo”.
Tão real quanto isso é o facto de que, a medida que o acelerador do tempo for carregado no sentido do mês dedicado às mulheres ser atirado para a história, as preocupações das mulheres desaparecem das agendas políticas e sociais.
Fica-se pelas meras lembranças dos festivais de véspera, sufragados pelos dias 2 e 8 de Março, consagrados à mulher angolana e mundial, respectivamente.
Por não concordar com a hipocrisia da romaria feita por ocasião das datas atrás citadas, decidi-me por esta reflexão juntando a minha voz à daqueles que concordam que as causas da mulher são tão profundas, pelo que toda e qualquer abordagem das questões à elas atinentes deve figurar na agenda dos políticos, em posição de destaque e prioridade.
Deste princípio, se calhar, encontram-se os melhores caminhos para se acautelar o vilipêndio por que passam muitas mulheres angolanas, que por razões óbvias devem ser consideradas heroínas. Aliás, por maioria de razão, considerando o papel desempenhado pelas mulheres no contexto das guerras que assolaram o país, desde a luta contra a ocupação colonial ao conflito armado interno, terminado em 2002, não restam dúvidas que foi de elevada importância o trabalho por elas desenvolvido, independentemente da inclinação quanto a simpatia político-militar.
Não incluindo nas contas as referências históricas atribuídas à Deolinda, Engrácia, Irene etc, há que convir que existe, no mundo do anonimato, um enorme exército de mulheres mártires angolanas, cujo contributo para a construção do que Angola é hoje não se pode resumir ao pouco que é feito por altura da celebração do 2 e 8 de Março.
Julgo não ser coisa de lesa pátria solicitar que, com alguma profundidade, seja feita uma reflexão mais realista sobre o papel da mulher nos variados contextos e momentos da nossa sociedade. À guisa de exemplo, penso estar na hora de mudança de paradígma na forma de tratamento da mulher zungueira, cuja actividade não pode ser vista apenas como um exercício eivado de negativismo.
Há que considerar a relevância do papel da mulher zungueira na educação dos filhos, muitos deles acabam sendo, academicamente melhores que os chamados “filhinhos de papai”.
O sector económico, nesta altura em que é bem-vinda toda a forma de impostos, se calhar, em consonância com outras entidades, devem começar a avaliar a possibilidade de tornar a actividade das mulheres que actuam fora do sistema comercial formal, num importante nicho de taxação.
Em suma, queremos atribuir à mulher angolana, de um modo geral, um papel de maior destaque na sociedade, até por que, do ponto de vista da realidade estatística do último censo da população e habitação, elas são a maioria na matriz social angolana.
Desde logo, há que as tributar com o destaque merecido, e que Março seja apenas uma das muitas oportunidades que ao longo de todo o ano obrigam-nos à referências positivas às mulheres, por sinal, as geradoras da vida humana.
Uma última nota, se calhar deslocada do objectivo deste texto, tem que ver com a ironia de ser também no mês de Março em que se comemora o dia do Pai, internacionalmente consagrado.
E como alguém perguntou, com razão (?), passe o pleonasmo, qual é a razão do dia do pai ser comemorado no mês da mulher, sendo que um dos grandes problemas das mulheres se prende  justamente com os vários tipos de violência protagonizada pelos pais?

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