Opinião

A paranóia do momento

Osvaldo Gonçalves

Mafalda, esta é a primeira vez que te escrevo. Sei que vais dizer que já morreste. Os outros dirão, simplesmente, que as galinhas não sabem ler. Tudo bem. A todos digo que não me importa. As galinhas não sabem ler, mas isso não as impede de serem boas pessoas. Há por aí quem saiba ler e nada entenda ou não quer entender.

Tu já morreste, querida Mafalda. Eu sei. Mas também sei que gostavas mais de farelo que de milho inteiro. Quando te dava farelo, punhas dois ovos por dia: um de manhã, outro à tarde. Quando era milho inteiro, punhas apenas um ou não punhas mais nenhum. Mas, sempre me cumprimentaste. Bom dia de madrugada, antes de sair para trabalhar. Boa noite quando voltava do trabalho.
Acho que não te lembras bem de mim porque me vias sempre sem a luz do Sol. Mas, talvez seja melhor assim, pois ficas com uma ideia mais romântica de mim. E eu gosto.
Escrevo-te por isso. Porque tu, Mafalda, tenho toda a certeza, vais-me entender mesmo sem saber ler nem escrever. Afinal, estes escritos não são dirigidos, penso eu, a quem sabe ler, mas a quem faz algum esforço, por menor que seja, para entender.
Como é óbvio, não se trata aqui de qualquer tentativa para tentarmos distinguir os analfabetos totais dos analfabetos funcionais, pois, a nosso ver, são todos vítimas do passado, assim como o são nos dias que correm, quando já não se levam cântaros à fonte sob o risco de algum dia deixarem lá a alça.
Os analfabetos funcionais são vítimas, Mafalda, embora se possam revelar mais perniciosos que os totais, nomeadamente quando se alcandoram em novos Tamodas e sejam, por isso, apenas menos perigosos do que aqueles, analfabetos ou doutores, que, por mais disfarces que usem, jamais poderão passar por capuchinhos vermelhos.
Tudo isto vem a propósito do que julgo estar a tornar-se numa verdadeira paranoia, a paranóia dos revús e dos bajús, uns mais pimpões do que outros, todos, afinal, tão lobos que mal disfarçam as bocarras.
Muitos fazem como tu: dispensam o trabalho que dá irem comendo grão a grão e empantorram-se de uma vez na malga do farelo. Que é tudo milho já nós sabemos, mas este já vem moído e, como as galinhas não têm dentes, todo o trabalho para fazer a digestão fica a cargo da moela. Se fossem seres ruminantes, dariam com certeza boa dobrada.
Por isso, querida Mafalda, é que me vejo obrigado a ponderar quando quero dizer que eras muito boa pessoa, pois temo ser acusado de estar a bajular-te, ainda que agora tenha de comprar os ovos à mulher da zunga, na praça, na cantina do “Mamadú” ou no supermercado.
Pois é, querida Mafalda - e peço desculpas por usar-te para desabafar -, a nossa sociedade está envolta num manto curto e cheio de remendos, em que todos acusam e todos temem ser acusados. Hoje em dia, muitos nem sequer cumprimentam os vizinhos. Parecem ter receio de ver esse acto de simples boa educação confundido com alguma de adulação.
Já há quem tenha deixado de frequentar a casa da sogra aos fins-de-semana só para não terem de se cruzar com aquele cunhado ou cunhada que acaba de ser promovido. Cá em casa, além das mulheres da zunga, os que mais batem à porta são os “publicadores” que se dizem porta-vozes de Deus. Esses decerto não se importariam se fossem bajulados, de tão zangados que ficam quando não lhes damos a atenção que acham merecer.
Mas é melhor atender as zungueiras e os “publicadores”, porque com esses não se corre o risco de qualquer mal-entendido, afinal, é sempre bom comprar à porta de casa e ninguém nos vai acusar de adorarmos o todo-poderoso.

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