Opinião

A pirâmide da consciência nacional

José Luís Mendonça |

O discurso de fim de  ano do Presidente João Lourenço aborda uma questão crucial para qualquer nação deste nosso planeta assolado, agora mais do que nunca, pelo retrocesso mundial na salvaguarda dos direitos elementares do Homem, em especial, o direito “a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar.”

O Presidente de Angola disse no Palácio da Cidade Alta que são necessários “passos decisivos para moralizar” a sociedade e que devem ser os próprios dirigentes os primeiros a primar por uma atitude ética.
O momento histórico que Angola está a viver tem várias leituras, de acordo com o ângulo de abordagem que queiramos adoptar. Uma leitura muito particular é de âmbito sociológico e aponta para a problemática da consciência moral das novas gerações que estamos a formar.
As grandes fontes de formação moral da juventude situam-se na Escola, nos centros de formação profissional, nos centros religiosos e, sobretudo, no seio da Família. Mas há uma determinada fonte que actua sobre a consciência dos mais novos, por simples mimese ou imitação. Trata-se dos actos públicos dos nossos dirigentes.
Tudo o que um dirigente faz, fala ou manda fazer aos seus subordinados é captado pela consciência social dos jovens. E esse agir político desce da super-estrutura social em forma de pirâmide psíquica e estrutura a grande massa de receptores mentais das camadas mais jovens da população. Na sociedade existe, metafórica mas concretamente, a pirâmide da consciência nacional, cujo ângulo ou vértice cimeiro lança ondas psíquicas sobre a infra-estrutura angular mais alargada. Tanto é assim que o vértice superior, dotado da dinâmica do poder de governar, dita o curso da história da nação, enquanto os ângulos inferiores, que fazem mover os êmbolos da produção material e são o escudo militar por excelência, seguem aquela dinâmica.
É claro que, sempre que as contradições entre estas duas camadas interpostas se agudizam, criam-se fricções com um grande protagonismo juvenil, como vimos no caso dos “revus”, que todo o mundo parece ter esquecido nesta nova era de busca de maior justiça social e abertura política.
Enganam-se, pois, aqueles que, estando ou tendo estado no centro do poder constituído, pensam que o seu comportamento ou determinação política não teve, nem tem repercussões na consciência moral e ética da juventude e até mesmo dos adolescentes e crianças.
E engana-se o ministro da Justiça se pensar que basta introduzir a disciplina de Direitos Humanos na Escola para criar nos mais novos uma consciência ética e moral, sem que haja uma mudança comportamental dos políticos.
Hoje, qualquer jovem que viu na televisão as pessoas que mais delapidaram o erário e o cumbu da Sonangol a branquearem a sua imagem no seminário do MPLA sobre corrupção em Angola, certamente terá ficado com a noção de que não vale a pena ser honesto, dedicado, nem cumprir com a Lei. A juventude está a crescer a um ritmo vertiginoso. Durante as últimas décadas, a nossa juventude aprendeu exemplos de imoralidade. Cresceu sem ética na cabeça. Daí o caos no trânsito, onde cada um quer ser o primeiro. Daí a gasosa. Daí a proliferação do crime mais abjecto, o tráfico de pessoas (ainda há duas semanas desapareceu mais uma mulher jovem).
Durante a nossa independência, foram proferidas por altos dirigentes três palavras de ordem que penetraram nas mentes da população.
“O cabrito come onde está amarrado” e “hoje ninguém vive só do seu salário” são duas delas. Há quatro anos, quando estive em Joanesburgo, apanhei um táxi. No percurso, o táxi foi mandado parar por um polícia de trânsito. Perguntei-lhe em inglês se ele tinha licença e o que queria o polícia. “This guy just wants some gasosa”, respondeu o taxista. Vejam só o que exportamos, por via do exercício diário do cabritismo!
Agora, é urgente desfazer estes slogans que alavancaram, em níveis quase astronómicos, a economia informal e a privatização do Estado.
E não pode ser apenas o Presidente João Lourenço. A sua equipa governamental tem também essa responsabilidade de sensibilizar a opinião pública no sentido de honrarmos o valor universal da justa consideração do trabalho humano. Aqui em Angola, hoje em dia, olha-se para um intelectual já mais velho que não ficou rico, mas vive apenas do seu trabalho, como se fosse um mendigo. E o próprio Estado não sai em sua defesa como sai em defesa de um outro cidadão cheio da massa.
Disse ainda o Presidente João Lourenço que aspira ao “surgimento de uma verdadeira renovação de mentalidades e de comportamentos no seio da sociedade”. Para este efeito há que colocar no vértice cimeiro da pirâmide a terceira palavra de ordem, um tanto ou quanto esquecida, proferida pelo primeiro Presidente de Angola: “O mais importante é resolver os problemas do Povo.”

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