Opinião

A pobreza e o reino dos céus

Osvaldo Gonçalves

Nos últimos tempos, temos visto uma forte tendência para reclamarem apenas por reclamar.

Muitos choram de barriga cheia. Escrevem nas redes sociais textos a questionar a veracidade de alguns posts de licenciados virem cheios de erros ortográficos, mas, fazem-no também cometendo erros de português. Até mesmo ortográficos. Dizemos isso para não entrar no campo da semântica. Muito menos da simbologia, quanto mais da semiótica. Ainda assim, lamentam o sucedido, tal como quem, num programa de grande audiência na TV pública, disse ter “provas” de que tudo não passa de fraude, mas não as apresentou. Tudo isso, se nos permitem o neologismo, é “coitadismo”, a nova mania que parece afectar muitos, não apenas aqueles que se mostram pobres em jogadas de marketing, mas também muitos que exibem carrões à porta de casa, mas dormem no luando, enquanto apontam o dedo a outrem: “Coitado. É tão pobre!”
Normalmente, a riqueza é posta de parte nestas pesquisas, mas é mais difícil que o mesmo aconteça com a pobreza. As estatísticas da ONU apontam que mais de mil e 500 milhões de pessoas em 90 países do mundo sofrem com a pobreza multidimensional, o que significa que passam por privações, necessidades básicas e comuns, como por exemplo: saúde, educação. O número dos que vivem quase na pobreza é de dois mil e 200 milhões, ou seja, são muitos os desenrascados.
Difícil será distinguir os pobres de dinheiro dos de espírito, a quem, segundo São Mateus, pertence o reino dos céus, sendo por isso bem-aventurados. Os cristãos entendem que estes são-no por escolha, por livre-arbítrio, não o são por necessidade, mas por darem mais importância às coisas espirituais.
O que se repete é que alguém pode ser milionário, mas totalmente desligado do dinheiro, enquanto outros, atirados para a mendicidade, apegam-se de tal forma ao dinheiro que não têm. E diz-se mais: que um rico pode. Não sofre devido à perda de dinheiro. Um pobre pode não saber viver sem ele.
Assim dito é tudo muito bonito por ser tão utópico. O problema é que quem prega a preferência de Deus pelos pobres normalmente vive muito bem e tem bastante dinheiro para gastar. Outros, mais inspirados, defendem que o Senhor é imparcial, que não toma o partido dos pobres nem dos ricos, razão pela qual não errado possuir dinheiro, mas ser-se possuído por ele.
Entendem, dessa forma, os pobres de espírito não apenas pobres de dinheiro, mas aqueles que mendigam as coisas do espírito, que se procuram espiritualizar. A confusão é tanta que se fica sem saber quem são os pobres e quem são os pobres de espírito. Uma coisa é certa, são mais os pobres de dinheiro que se procuram espiritualizar que os ricos envolvidos nessa busca e quando o fazem, é normal que se percam no caminho ou se deparem com barreiras. Foi o que aconteceu com o banqueiro italiano Gilberto Bashiera, condenado a dois anos de prisão com pena suspensa depois de ter sido apanhado a roubar dinheiro das contas de clientes ricos para transferir para aqueles que tinham mais necessidades económicas para obter um crédito.
A pena foi suspensa porque Bashiera chegou a acordo com as autoridades italianas. A seu favor contou o facto de não ter beneficiado do dinheiro e não possuir antecedentes criminais. Mas ele arrependeu-se de, ao longo de sete anos, ter transferido cerca um milhão de euros em pequenas quantias para as contas de alguns clientes que deviam devolver essas quantias rapidamente. Como não o fizeram, o banqueiro acabou detido, perdeu a casa e o emprego. O novo “Robin dos Bosques”, como foi chamado, agora lamenta: “O preço que paguei é demasiado alto. Não o faria de novo”.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia