Opinião

A Semana Mundial do Espaço e o sonho de ser astronauta

Filomeno Manaças|*

Hoje dei comigo a recuar umas quatro décadas e meia no tempo. E fi-lo por duas boas razões, que passo a descrever, com aquele sorriso que as boas coisas provocam na alma.

A primeira é que o meu netinho de dez anos, que está a crescer como se tivesse estrume nos pés, vai-me dizendo, às vezes, que já está quase a ficar da minha altura e que quer crescer rápido para poder fazer certas coisas que não o permitimos  - como querer ficar diante da televisão ou a jogar PlayStation para além das 20h30 -, porque a resposta que recebe é a de que ainda não tem a idade apropriada.
E eu a pensar cá com os meus botões que, se ele soubesse as dores de cabeça que uma pessoa crescida tem, nunca iria querer crescer, porque ficar adulto, lá isso as pessoas conseguem, mas fazer o tempo voltar atrás e voltarem a ser crianças, isso nunca. Só mesmo em pensamento.
A segunda razão é porque a mente humana é realmente fantástica!
Não quero falar da capacidade de certos animais em memorizarem as coisas e da inteligência de muitos deles, que chega a ser superior a de muitos humanos. Esse é outro terreno que não está na agenda da conversa de hoje.
Regresso à frase que deu origem à exclamação, sobre o fantástico que é a mente humana, porque na infância já sonhei em ser piloto, já sonhei em ser astronauta, delirava com as coisas sobre o espaço. Em boa verdade já sonhei em ser muita coisa, que acabei por não ser, porque aos 18 anos fui desviado para o jornalismo… Mas a Semana Mundial do Espaço, que decorreu de 4 a 10, trouxe em mim a nostalgia dos tempos em que o universo espacial era o meu sonho e dominava os noticiários sempre que o homem alcançava mais um feito.
Data dessa altura o meu primeiro contacto com a expressão “… sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança”. Afinal  um excerto do poema “Pedra Filosofal” musicado por Manuel Freire (estava na moda…), da autoria de António Gedeão, aliás Rómulo de Carvalho.
As explorações e descobertas, e não apenas elas, são isso mesmo: fruto dos sonhos que resultaram em progressos científicos, técnicos e culturais que deram outro impulso à evolução da humanidade.
E sobre o espaço em concreto, é com o escritor francês Júlio Verne (1828-1905), na sua obra “Da Terra à Lua”, com um século de antecedência em relação aos acontecimentos, que as viagens espaciais começam a esboçar-se. Verne lançou a semente e deixou como legado cálculos técnicos muito precisos sobre a velocidade necessária para poder vencer a gravidade terrestre e deixar a Terra. Avanços posteriores mostraram entretanto que o valor por ele calculado era superior ao necessário.
Coube ao russo Konstantin Eduardovich Tsiolkovski (1857-1935) a façanha de assentar as bases da astronáutica e construir o primeiro foguetão interplanetário. Considerado por isso o pai da astronáutica, Tsiolkovski morre contudo sem ver os seus estudos científicos produzirem resultados.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, a então União Soviética consegue colocar em órbita o primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik 1, que foi um sucesso ao emitir sinais de rádio captados na estação terrena, feito que marca o início, a 4 de Outubro de 1957, da conquista do espaço. A 3 de Novembro de 1957 a URSS coloca em órbita o Sputnik II com a cadela siberiana Laika no seu interior, que mostraram que um animal poderia sobreviver naquelas altitudes e, portanto, um humano também. Aos satélites artificiais, que tanto soviéticos como norte-americanos lançam depois com fins científicos e práticos, segue-se o desafio de colocar no espaço naves tripuladas.
A 12 de Abril de 1961 o russo Yuri Gagarin torna-se o herói ao dar uma volta completa à Terra numa nave espacial. Em 1965 segue-se-lhe o também russo Alexei Leonov como o primeiro homem a passear no espaço, onde flutuou durante mais de 23 minutos e chegou a uma distância de 5,35 metros da nave, ligado entretanto à mesma através de um cabo grande e resistente.
A 20 de Julho de 1969, os astronautas norte-americanos Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins protagonizam o grande acontecimento da chegada do homem à Lua, a  bordo da nave Apollo 11, num evento que foi já transmitido pela televisão numa boa parte do mundo. Quatro meses depois a Apollo 12 era enviada para nova missão lunar.
O contexto da Guerra Fria marcou em grande medida a disputa entre as duas grandes superpotências de então (Estados Unidos e União Soviética) na corrida ao espaço.
Não tardou, por conseguinte, que o ambiente se alastrasse à indústria cinematográfica. Vieram os filmes sobre a Guerra das Estrelas e, com eles, outros tantos de ficção científica que elegeram o espaço como palco de actuação.
De lá para cá muita coisa aconteceu e novos actores surgiram, sobretudo no que diz respeito ao envio de satélites artificiais ao espaço.
No dia que marcou o encerramento da Semana Mundial do Espaço em Angola, um pequeno satélite em miniatura, denominado Cansat, foi apresentado no Centro de Formação Tecnológica do Itel, no bairro dos CTT, no distrito urbano do Rangel. Um projecto que envolveu a participação de técnicos angolanos e teve a colaboração de 30 universidades do país e foi promovido pelo Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação por intermédio do Gabinete de Gestão do Programa Espacial Nacional (GGPEN).
Uma ocasião para recordar que Angola tem vários jovens inventores cujos projectos poderiam contribuir também para dar um outro dinamismo à economia nacional. Muitos desses inventos andam por aí espalhados, ganharam prémios, mas não saem do papel.
É preciso investir, é preciso apostar.
Lembrete: o maior evento espacial da Terra, a Semana Mundial do Espaço, é uma celebração internacional da contribuição da ciência espacial e tecnologia para a melhoria da condição humana. Este ano teve como tema “O espaço une o Mundo”.

* Director Nacional de Publicidade do Ministério da Comunicação Social. A sua opinião não engaja o Ministério da Comunicação Social

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