Opinião

A surra dada pelo matulão no meio do sono profundo

Filomeno Manaças | *

Júlio Temehipo, 17 anos, acordou nesse dia bem cansado e com o corpo todo dorido.

Parecia que tinha levado uma valente surra de um matulão qualquer no meio do sono profundo. Não tinha febre, muito menos dores de cabeça e defecava normalmente. Só se queixava mesmo era das dores musculares, nas articulações e nos ossos. Estranhava que tivesse acordado assim, até porque no dia anterior nada fizera que justificasse o que estava a sentir. Nunca se sentira assim antes, nem mesmo quando tivesse malária ou paludismo. Quando assim fosse, já conhecia os sintomas. Ir ao médico era apenas para confirmar e ele passar a devida receita. Os vómitos de líquidos viscosos e amarelados, as febres, os calafrios, as dores de cabeça intensas, acompanhados ou não de desinteria, não lhe deixavam qualquer dúvida e o diagnóstico era sempre infalível.
Como nada disso lhe dava, passou assim o dia de quinta e sexta-feira, a ver se as dores se iam embora. Foi na onda de ouvir um ou outro irmão, os primos e amigos dizerem que essas dores agora estão aí na moda, muita gente está a se queixar, mas depois passa. Quem não foi na onda foi dona Mariquinha Ngueve, que, ao terceiro dia, acordou bem cedo, às cinco da manhã, e, munida do seu inseparável terço, apanhou o candongueiro e foi a rezar, em surdina, em direcção ao mercado do 30. Pediu em preces protecção a Deus, porque esse filho e os outros lhe deram muito trabalho e não queria perder nenhum deles.
No regresso lá vinha carregada de folhas de né, de kizaca e de cajueiro. Juntou tudo numa panela com água e levou ao fogo. Em 15-20 minutos tinha tudo pronto para submeter Temehipo a um bom suador, que esperava o iria resgatar das amarras dessa estranha enfermidade e, em dois tempos, retemperar as suas energias. Logo logo iria estar aí a saltar e a jogar bola - pensou.
Mas nada! Se sábado o rapaz ainda aguentou, domingo pela manhã Temehipo piorou. Só então dona Mariquinha decidiu ir com o filho à consulta médica. Levou-o a uma clínica que lhe fora recomendada pela filha mais velha, com a indicação de fazer uma gota espessa e exame de urina para descartar uma infecção urinária. E assim fez. Porém, quer a gota espessa quer a análise de urina deram resultado negativo. O médico, diante desse quadro, disse nada poder receitar porque as análises estavam boas. Recomendou apenas Ibuprofeno se, e só mesmo se Temehipo sentisse dores…
Dona Mariquinha, inconformada, voltou para casa com o filho. A frustração ia aumentando e, ao vê-lo a gemer e a andar como se fosse uma mulher com dores de parto, como se estivesse prestes a dar a luz, outras ideias assaltaram-lhe a cabeça. Foi então que decidiu alertar os dois filhos mais velhos, Clarisse e Muturiquixe, que, pelo tom dramático empregue pela mãe, acharam por bem avisar os restantes elementos da família. Por isso, em pouco tempo a casa estava cheia. />Dona Mariquinha explicou a todos as sessões bi-diárias de suador que fez a Temehipo e que em nada resultaram. Passou em revista as suas relações com os vizinhos e também as de Temehipo. E foi aqui, com uma vizinha a meter indirectamente e de forma maliciosa achas na fogueira, uns a concordarem e outros a discordarem, que se instalou a ideia de que Temehipo poderia estar a ser vítima da vingança do vizinho Xico Mé, por ter ousado namorar com a filha e enfrentar o seu filho mais velho, um grandalhão de quem quase todos os putos do bairro nutriam um certo receio. Xico Mé ganhou a alcunha porque, por tudo e por nada, quando quisesse contestar algo a que se opusesse, a primeira coisa que dizia era “Ora chiça Ómé! Não é nada disso!”  Tinha fama também de que de noite se transformava para fazer mal às pessoas em pleno sono, particularmente às senhoras.
Estava, portanto, criado o clima para que dona Mariquinha entrasse em acção. Ela que gostava pouco de brigas e que, quando entrasse numa, era como se fosse uma leoa ferida. Apesara dos conselhos, dona Mariquinha não se segurou e passou ao ataque. Em companhia dos que acreditavam na “tese da vingança”, dirigiu-se à casa do vizinho Xico Mé e, no portão, fez um escarcéu de todo o tamanho. Xico Mé, os filhos, a mulher, olharam para o espectáculo, responderam algumas vezes, quase se envolviam fisicamente, mas seguraram-se.
Entretanto três polícias apareceram para se inteirarem do problema. Os envolvidos foram convidados a esclarecer o assunto na esquadra e dona Mariquinha nada pode provar. A Polícia recomendou seriamente calma a todos e a recolherem-se em suas casas. Domingo, já noite feita, Clarisse e Muturiquixe conseguem localizar e levar à casa da mãe um médico amigo para ver Temehipo. O médico olha para o rapaz, mede-lhe o pulso, tira-lhe a temperatura e, aparentemente, está tudo bem. Pede o resultado das análises feitas na clínica, avalia-as, e poisa o papel de lado. Pergunta a Temehipo se não tem vómitos, febre e dores de cabeça, e ele diz que não, só mesmo as dores musculares e dores nos ossos. O médico indaga o paciente se está a defecar normalmente, e este responde que sim, com a ressalva do dia de hoje (domingo), que fez apenas uma ligeira diarreia.
Diante deste quadro, o médico remata - “Essa diarreia pode ser um sinal. Como estamos numa região endémica, muito assolada pela malária, vou receitar-te Coartem. Seis comprimidos para tomar de 12 em 12 horas”. Terça-feira Júlio Temehipo já se punha de pé. Na quarta-feira já estava bem melhor. Na quinta já estava na galhofa com todos os amigos do bairro. Sábado jogou uma peladinha!

* Director Nacional de Publicidade. A sua opinião não engaja o Ministério da Comunicação Social

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