Opinião

A teoria da conspiração

Osvaldo Gonçalves

Acordou cedo, seis da manhã. Minuto a mais, minuto a menos. Foram os passarinhos que o acordaram. É, foram os passarinhos. Mais uma vez. Foram eles, os passarinhos. Tinha de arrancar aquela planta de junto da janela do quarto. Era ela que os atraía. Eram as flores dela que os atraíam todos os dias. Logo de manhã e à tardinha, os passarinhos vinham até aquela planta. As flores, vermelhinhas, atraíam-nos. Eram, sobretudo, beija-flores.

Também costumavam vir pardais e celestes, mas na maioria eram beija-flores, Os pardais comiam as sementes que ficavam espalhadas em cima da terra lavrada quando ele fazia novas sementeiras e comiam as larvas e insectos. Também vinham rolas debicar os grãos de milho e de massambala, até de sorgo, das raras espigas que tinham crescido nas hastes que haviam germinado daquela espiga que trouxera; vinha do mini-mercado, trazia açúcar, café, leite magro, sumo de laranja, alguns pacotes de bolacha de água e sal e rebuçados de mentol. Parara para acender um cigarro ali junto à lavagem de carros, um rapaz aproveitara para lhe cravar um e ele aproveitou para lhe pedir que saltasse a vala e arrancasse uma espiga de sorgo.
Há muitos dias que queria levar uma espiga para casa, retirar-lhe as folhas, despi-la por completo e espalhar os grãos. Semear. Se se podia chamar semear àquilo que ele fazia. Basicamente, revolvia a terra, atirava as sementes e voltava a volver. Depois, ligava o chuveirinho da horta e deixava assim por alguns minutos, 2, 3 no máximo, talvez 4 ou 5. Tudo dependia de ter chovido ou não nesse dia. Regava ao fim do dia para aproveitar o fresco da noite, e de manhãzinha para evitar que o calor secasse a terra em demasia e as sementes não germinassem, talvez mesmo as outras plantas morressem e secassem.
A maior parte das pessoas acha que as plantas secam e morrem, ele entendia que elas morriam primeiro e secavam depois. Sabia de plantas que secavam primeiro e depois morriam, de plantas que “ressuscitavam” com a humidade, mas essas não eram as plantas dele. Seria muita covardia as suas plantas esperarem até secar para depois morrerem. As dele morriam e depois secavam, viravam pó. Talvez então voltassem a nascer, mas outras plantas. Não as mesmas. Porque essas já teriam morrido.
Levantou-se, ligou a TV, lavou-se e foi para a cozinha preparar o matabicho. Coisa básica: sumo, café com leite, pão com queijo e fiambre e um ovo estrelado. Só comia um ovo. Punha-o num prato com um pouco de farinha musseque, misturava tudo com alho e cebola crus e comia. Às vezes mordiscava um pouco de gengibre. Tomava um gole de água e ia ligar o computador, lia os e-mails, quando havia, e as notícias do dia, enquanto fazia uns telefonemas e revia a agenda do dia.
Essa era a sua rotina de todos os dias. Mas não nesse dia porque chovera a cântaros durante a noite, o assoalho do quintal estava húmido, escorregou e quase caiu, não havia pó para o café, pôs e frigideira ao lume com margarina porque acabara o azeite de oliveira e quando partiu um ovo para estrelar, reparou que este tinha duas gemas. Ainda assim, preparou o pequeno almoço, comeu apenas metade do ovo, só uma gema, foi para a sala, sentou-se no sofá, ligou o computador e, por mais que tentasse, a Internet não abria, na TV só passavam notícias sobre guerras, enchentes, acidentes de trânsito e outras tragédias, mudou para um canal de desporto, podia ouvir, raio, mas o aparelho estava avariado, pegou no telemóvel, ligou para um amigo, mas como resposta ouviu aquela voz a dizer-lhe que o saldo não era suficiente para completar a ligação. Encostou-se o melhor que pôde e resolveu ler um pouco. Era a única coisa que lhe restava fazer. Pegou num livro ao calha, leu o título e sorriu. Dizia: “Teoria da Conspiração”, de Edson Aran. Era isso. Só podia...

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