Opinião

A urgência do tempo

Adebayo Vunge

A História jamais se apagará. Os feitos dos seus protagonistas muito menos. E neste capítulo, José Eduardo dos Santos não é apenas o ex-Presidente da República de Angola, ou se quisermos ainda Presidente do MPLA. Ele é uma figura incontornável da história e protagonista de grandes feitos, não obstante os erros, pois é um ser humano falível, que lhe possamos apontar.

Foi claramente reforçada a minha convicção sobre a urgência do tempo quando há dias o jornalista Jaime Azulay, exímio contador de histórias, principalmente de histórias da nossa guerra ou da nossa história recente (para quando o livro?), baseado em fontes orais, contou o seguinte num post no Facebook:
Nito Alves, Monstro Imortal não aceitavam essa opção estratégica de Neto e já tinham um historial de rebeldia por não aceitarem a integração de mestiços e brancos nas fileiras do movimento, principalmente em postos de chefia. Chegaram a marchar a pé dos Dembos até Brazzaville, onde chegaram à sede do MPLA para falarem com o presidente Neto. Apenas encontraram Lúcio Lara e o amarraram durante algumas horas no quarto de banho. Quem mediou essa crise foi José Eduardo dos Santos que ali se encontrava. O presidente do Congo, Marien Ngouabi exigiu que Neto resolvesse rapidamente o assunto. JES reuniu com os amotinados numa grande tenda, mas antes teve de negociar com eles porque queriam entrar para a tenda armados. Finalmente aceitaram deixar as armas fora da tenda e o asseguramento ficou a cargo das autoridades congolesas. A verdadeira génese do fraccionismo começa aí e por essa razão que Neto indicou JES para chefiar a Comissão que investigou o fenómeno fraccionista de 27 de Maio de 1977. Porque JES já tinha lidado com eles no passado e demonstrava habilidade negocial para influencia-los a aceitarem a estratégia e liderança de Neto.
Este é apenas um trecho insignificante do manancial de informações sobre a História de Angola que precisa ser escrita por quem a viveu. A morte de Neto e a sua sucessão. As diferentes etapas da Presidência de José Eduardo dos Santos. As negociações de paz com a UNITA de Jonas Savimbi. A estratégia e participação de Angola em diferentes processos como a fricção com o ex-Zaire e queda de Mobutu, a morte de Kabila, a África do Sul e o fim do apartheid, as relações com os demais PALOP, as crises económicas e sociais profundas, a relação com o Ocidente, a viragem para a China, a Constituição de 2010, a construção de uma burguesia nacional baseada na acumulação primitiva de capitais e o quanto o seu método ou resultado terá sido o pretendido, para além de alguns aspectos sócioculturais da gestão do poder, como o peso e influência das famílias.
Há urgência do tempo para retratarmos a realidade histórico-política angolana e não há melhor ou mais legítimo olhar do que aquele que poderá ser feito por um dos seus actores-chaves, levando aos mais novos e além-fronteiras todo o seu arsenal e background histórico. JES tem aqui uma oportunidade invulgar de ser a voz definitiva do percurso do MPLA. Uma rigorosa biografia de José Eduardo dos Santos seria um best-seller, desafio a que se deveriam prestar familiares, o próprio e o MPLA para além de uma panóplia de experts nestas questões, como o jornalista e antropólogo António Tomás. Todos precisamos beber deste conhecimento. Os 60 anos de política activa e intensa de JES merecem um bom filme, ao estilo de Oliver Stone ou Clint Eastwood. Precisamos exaltar a nossa História e celebrar as nossas figuras. Todas elas. De todos os tempos.
Para percebermos melhor a urgência do tempo, socorro-me também de um texto filosófico sobre o tempo, no qual o Pe. José Tolentino Mendonça nos lembra: ninguém consegue parar o tempo, que está sempre a correr, num galope instante. A experiência que fazemos é a de não possuir o tempo, não conseguir travá-lo na sua fuga sem fim. A vida é uma corrida, uma aceleração: às vezes parece que a estrada, debaixo dos nossos pés, corre mais do que a marcha.
A urgência do tempo, de um tempo vivido de modo intenso pelo ex-Presidente da República, é também válida para o novo Presidente da República, João Lourenço, que deve assumir, não apenas em parcelas, ou por mero formalismo e historicidade, também a liderança do seu substrato partidário. É a urgência do tempo que assim o impõe para que tenha força – nunca absolutismo – e as condições para as inadiáveis ou imprescindíveis reformas, sobretudo quando falamos do combate a corrupção, moralização da sociedade e de outros males endémicos que proliferam actualmente. A construção de um novo modelo de sociedade deve assentar na inclusão, na ética republicana por parte dos poderes do Estado e da aposta séria na educação, enquanto pilar para a transformação social e o crescimento económico que todos almejamos.
Um grande patriota, como é JES, defende o interesse nacional acima de tudo e todos, estando atento aos sinais dos tempos e ao tempo de dar tempo a própria história. Um reformador não pode estar condicionado. João Lourenço, como sucedeu com o General Charles de Gaulle, não pode estar limitado e talvez por isso seja imperioso evitarmos qualquer “stress constitucional”, tema de que me debruçarei em outra ocasião.

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